23 de março de 2015

Morro da Cruz e Residencial Vitória


Sobrados, casas de um pavimento, estabelecimentos comerciais. Todos os dias uma nova construção surge nos bairros Morro da Cruz e Vitória, em São Sebastião. Como o primeiro nome sugere, ambas localidades ficam em cima de um morro e a fronteira entre elas é imaginária. A maioria das obras da região ainda está no tijolo e há areia e pedras espalhadas pelas  ruas, sinais claros de que os trabalhos por ali são contínuos. Para piorar, casas estão sendo erguidas próximo a um córrego da região, em uma área de proteção ambiental.

Edvânia Santos, manicure, de 34 anos, é moradora do Morro da Cruz. Ela conta que a região não possui água encanada e luz elétrica. “Gostaríamos de pagar pela água e luz que consumimos, mas a CEB e a Caesb dizem que só poderão oferecer esses serviços após a regularização da área, que ainda não tem prazo”.

Enquanto isso, a população faz as famosas “gambiarras” ou “gatos” para obter luz elétrica e utiliza água de poços artesianos. “Agora que o bairro já está desenvolvido, acho muito difícil ocorrer uma derrubada (das casas). O governo deveria legalizar logo”, completa a manicure.

Área irregular
O auxiliar administrativo Carlos Eduardo Bontempo, 42, reclama da falta de posicionamento da administração regional. “Não dizem nada sobre a regularização, ficamos sem saber o que vai acontecer. Ninguém está aqui porque acha bonito, precisamos de um lugar para morar”. 

Alberto Inácio, ajudante de obras, de 42 anos, está construindo a casa em que morará com a família a poucos metros do córrego. “Temos uma cessão de direito das terras e, desde que começamos a construir, ninguém nos disse nada”, justifica ele. 

Questionado sobre as operações de fiscalização na área, Inácio afirma que “nunca viu”.  
Rogério Araújo Júnior, presidente da Associação de Moradores do Morro da Cruz, admite que ele mesmo comprou um lote de terceiros. “Sei que é ilegal, pois os antigos chacareiros parcelaram as terras”, diz ele.“Queremos contribuir, pagar água, luz e IPTU, mas, para isso, a área precisa ser regularizada”, completa.

Associação de moradores se defende
Ainda de acordo com Rogério Araújo Júnior, entra governo, sai governo e as propostas de regularização da área continuam na promessa. “No governo passado, pediram que novas construções fossem suspensas para poder dar início ao processo de regulamentação. Acontece que a gente pede aos moradores, mas não tem como controlar isso”, lamenta.   

Ele lembra que quando se mudou para o morro, há cerca de cinco anos, ainda havia poucas casas na região. “Morava de aluguel com a minha família e, então, vi o Morro da Cruz como uma oportunidade de ter a casa própria”, alega.

Agora, com o impasse longe de ser resolvido, Rogério afirma que a associação tenta um encontro com o novo governo. “Queremos respostas, sejam elas quais forem”, conclui.

Meio ambiente
No que tange à proteção ambiental, o Código do Meio Ambiente estabelece que ocupações habitacionais só podem ser realizadas a, no mínimo, 30 metros de distância de córregos.

A Administração Regional de São Sebastião foi procurada para comentar sobre o assunto, mas, até o fechamento desta edição, nenhuma resposta foi emitida.

Fonte: Da redação do Jornal de Brasília

20 de março de 2015

DER propõe mudanças no balão da ESAF


A iniciativa é uma resposta rápida às reivindicações da Associação Comunitária dos Condomínios do Jardim Botânico (AJAB),que reuniu várias lideranças da região em audiência com o Superintendente de Obras do DER, Cristiano Cavalcante, e com representantes da Secretaria de Mobilidade do Distrito Federal.

Em um encontro na comunidade do Jardim Botânico, coube ao engenheiro de transito Darione José Maria, do Departamento de Estradas e Rodagem do DF, apresentar o projeto que visa desafogar o enorme fluxo de veículos na região. 

Ele explicou que serão feitas obras emergenciais no balão da ESAF, que será diminuído em seu diâmetro para que a via de rolamento seja aumentada para 3 faixas. De acordo com o projeto, a via marginal do comércio será de apenas mão única até às 09 da manhã para facilitar o fluxo.

O DER também fez um levantamento sobre os acidentes ocorridos nos pontos críticos da DF-140, depois do alerta feito por Jose Raimundo Pinto, líder comunitário do Setor Habitacional Tororó. De acordo com o engenheiro Darione José, serão feitas algumas intervenções com lombadas e pardais de controle de velocidade da via. A DF-140 também ganhará novas placas de sinalização.

Outra iniciativa para melhorar a mobilidade do transito na 001 é a conclusão da duplicação da DF-463, principal acesso a São Sebastião. Será construído um balão de acesso ao Mangueiral onde moram mais de dez mil pessoas. O reinício das obras de conclusão das DF 463, segundo estimativa do DER, ocorrerá em junho. 

A presidente da AJAB, Viviane Fidélis, disse que as obras, embora emergenciais, serão de extrema necessidade para a melhoria da mobilidade urbana da região por onde passam cerca de 100 mil veículos todos os dias. Ela afirmou que o pleito atende a um oficio enviado ao DER pela Associação dos Condomínios solicitando ajuda na melhoria do conturbado transito da cidade. Para o presidente da Associação dos Moradores do Tororo, Major Bento, as intervenções irão minimizar as ocorrências de acidentes na região.

Para Wander Azevedo, representante do Setor Habitacional São Bartolomeu, a iniciativa do DER contempla aos apelos feitos pelas entidades representativas da região. Ele afirmou que a situação do transito na região só irá mesmo ser resolvido quando o governo colocar em pratica as obras estruturantes, cujos projetos faltam sair das pranchetas.

Azevedo exemplificou a duplicação da DF-001 e a duplicação da DF-140 como obras importantes para dar vazão à grande quantidade de veículos afugentados pela cobrança de pedágio da 040. “Se não for feita alguma coisa a região sofrerá com um transito pesado e insuportável”, prevê ele.

No entanto, o Superintendente de Obras do DER, Cristiano Cavalcante, informou às lideranças da região que o governo já liberou R$ 9 milhões de reais para aplicar no Anel Viário de Brasília, e que a duplicação da DR 140 e da 001 são obras prioritárias.

Da Redação Radar
Contato: radarcondominios@gmail.com

12 de março de 2015

Morro da Cruz



Em uma área historicamente marcada pela grilagem de terras, novas moradias surgem sem controle do Estado. Há quatro meses, em um terreno ainda livre de invasões no bairro Morro da Cruz, em São Sebastião, demarcações com madeira no solo alertavam sobre a irregularidade, agora consolidada. A vegetação foi engolida por residências. Há pelo menos 10 casas de alvenaria em fase final de construção, além de muros e cercas. Apesar de se tratar uma área rural, os moradores da região garantem que o local deixou de ter atividades agrícolas muitos anos atrás e esperam a regularização.

O bairro do Morro da Cruz é um dos mais locais mais visados pelos grileiros, de acordo com os órgãos de fiscalização. No ano passado, houve 203 operações da Subsecretaria da Ordem Pública e Social (Sops) na região para conter o avanço das invasões. Ao todo, 447 construções foram demolidas e 88 quilômetros de muros e cercas, derrubados. Existem na Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente e à Ordem Urbanística (Dema) 29 inquéritos policiais em aberto para investigar as irregularidades. No entanto, as investidas do Estado não foram suficientes para conter o surgimento do novo conjunto habitacional, que traz no endereço a palavra chácara. O Correio esteve na área em novembro do ano passado. À época, havia mato e algumas demarcações de lotes com madeiras. Quatro meses depois, as moradias tomaram conta.


De volta à região, a reportagem flagrou terrenos parcelados e vendidos à população sem autorização do Estado. Muros e casas de alvenaria são erguidos sem qualquer controle. Faixas com número de telefones denunciam a venda de lotes sem permissão. A atividade agrícola, prevista para o terreno, inicialmente, também não existe mais. Abordado, um morador confirma a descaracterização do lugar. “Isso aqui deixou de ser chácara há muito tempo, virou uma cidade. Estamos esperando a regularização.”

Mapa
Além do Morro da Cruz, em São Sebastião, outras áreas são alvo constante de invasores. Levantamento da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente e da Ordem Urbanística (Dema) no ano passado apontou o Assentamento 26 de Setembro, em Taguatinga; o Núcleo Rural Alexandre Gusmão, em Brazlândia; o Condomínio Sol Nascente, em Ceilândia; a Ponte Alta, no Gama; e o Altiplano Leste, no Lago Sul, como os locais visados pelos grileiros. Em todo o DF, a Sops realizou 957 ações em 2014 que resultaram na derrubada de 8,2 mil construções irregulares, entre casas e fundações. Material usado para erguer 470 quilômetros de muros e cercas também foram apreendidos.

Sobre a área do Morro da Cruz, a Sops informou que inspeciona a região periodicamente e realiza ações de retirada de obras irregulares. A Agência de Fiscalização (Agefis) garante que a ocupação irregular na área ocorre há mais de sete anos e tem monitorado o avanço das construções na área. Em média, de acordo com o órgão, são realizadas quatro operações de demolição por ano.


A Agefis garante que a nova gestão terá tolerância zero com as novas invasões em qualquer parte do DF. “Desde janeiro de 2015, vem sendo elaborada uma ação fiscal para operações demolitórias no Morro da Cruz. Invasões antigas vão ser tratadas de forma diferente”, diz o órgão, por meio de nota. O delegado-chefe da Dema, Ivan Dantas, informou que os órgãos de fiscalização passaram por uma reestruturação. “Lá, com certeza, será alvo de ações. É uma das áreas mais visadas para a grilagem”, disse.  Na Promotoria de Justiça de Defesa da Ordem Urbanística (Prourb), há seis inquéritos policiais, cinco ações penais e quatro procedimentos administrativos a serem investigados. “Os órgãos de fiscalização precisam agir de forma conjunta porque, isoladamente, não há efeito prático”, analisou o promotor Márcio Albuquerque.

29
Número de inquéritos policiais no Morro da Cruz, em São Sebastião

203
Quantidade de operações já feitas pela Sops

447
Casas foram demolidas no ano passado pela subsecretaria

2 de março de 2015

Déficit habitacional: demanda é de 32 mil moradias por ano


“Muitas vezes, a gente deixa de se alimentar para pagar o aluguel. Aí, você tira da boca do seu filho pelo fato de não ter onde morar”, desabafa Fabrícia Carnauba, de 39 anos. Desempregada, mãe de quatro filhos, sendo um deles deficiente, ela vive hoje em Ceilândia Norte. A família engrossa o déficit habitacional do Distrito Federal, que chega a 32,5 mil moradias por ano, segundo a Secretaria de Gestão do Território e Habitação (Segeth). No último governo, apenas dez mil unidades foram entregues pelo Programa Morar Bem. Enquanto isso, mais de 350 mil inscritos, incluindo Fabrícia, aguardam pela casa própria.

Diante do cenário e da ausência de respostas, que espera há 14 anos, desde que fez sua inscrição na Codhab, Fabrícia sustenta a casa alugada do jeito que pode. Hoje, ela paga o valor mensal de R$ 560 pelo pequeno espaço, dinheiro que só consegue graças à ajuda do primo. “Fui à Codhab para reclamar porque tem gente solteira ganhando o lote. Jovens sem filhos com imóvel na mão”, diz a dona de casa, que abriu mão do emprego para cuidar da filha de 16 anos, portadora de deficiência mental. 
Solução
O problema de Fabrícia e dos outros 350 mil inscritos no programa pode estar longe de ser resolvido. A intenção da atual gestão do GDF é entregar cerca de dez mil unidades habitacionais ainda neste ano. Contudo, salienta o diretor imobiliário da Codhab, Jorge Gutierrez, entre os desafios está “a obtenção de recursos financeiros para obras de infraestrutura”. Além disso, esclarece, “o processo de habilitação está passando por uma revisão geral, visto que foram detectados habilitados com renda superior à prevista nos programas.” 

Invasões contribuem
 A previsão, conta ainda o diretor imobiliário da Codhab, Jorge Gutierrez, é entregar, nos próximos meses, 112 unidades em Samambaia, 928 no Paranoá Parque e 2.304 no Parque do Riacho. “A Codhab está somando todos os esforços e estudos técnicos para entregar em 2015 praticamente a mesma quantidade de unidades habitacionais entregues nos últimos quatro anos”, frisa o diretor, que condena ainda as ocupações irregulares distribuídas no território do DF: “Para que um programa habitacional seja efetivo, as invasões devem ser integralmente evitadas, visto que interferem e atrasam a execução do planejamento habitacional realizado.”

Por isso, ressalta o diretor imobiliário da Companhia, a Agência de Fiscalização (Agefis) tem um papel importante na agilidade da entrega de unidades residenciais do programa Morar Bem: o de evitar novas invasões. O que, segundo a diretora-presidente do órgão, Bruna Pinheiro, vem sendo feito de acordo com as prioridades. 

“Estamos pegando todos os arquivos e analisando, justamente para quantificarmos isso. Tenho o projeto original de Brasília que eu lanço em cima do Google e me dá uma noção do que está fora do planejamento. A partir daí, iniciamos o trabalho”, afirma.

Para ela, porém, o déficit habitacional no DF coopera para que aconteçam as ocupações irregulares. “Isso estimula a grilagem de terra pública e a invasões também”, diz. O que, para quem aguarda na interminável fila de espera do programa Morar Bem, faz sentido. É o caso da dona de casa Fabrícia Carnauba, de 39 anos, que está há 14 anos cadastrada no programa. “Eu não teria coragem de invadir, porque as pessoas que fazem isso correm muito risco. Mas não sou contra essas pessoas. A gente vê tanta irregularidade acontecendo”, opina.
Fila
Cansadas de esperar na fila do programa, mais de 3,4 mil pessoas fazem parte hoje de um grupo no Facebook chamado Morar Bem DF 2015. O criador da página, Esmael Braz, 52, conta que fez seu primeiro registro em programas habitacionais em 1988. “Aí, tive meus documentos roubados e fiz novamente minha inscrição no governo Cristovam. De lá para cá, se não me engano, são mais de 20 anos”, lembra o morador do Setor P Sul de Ceilândia.

A ideia do grupo é unir forças para buscar soluções do governo que, segundo o autônomo, insiste em não dar posições concretas. “É uma enrolação. Você vai lá, liga e ninguém sabe nada”, relata.

Frustração por ainda não ter o próprio lar 
O criador da página do Facebook  Morar Bem DF 2015, Esmael Braz, de 52 anos, lamenta o fato de ainda morar de favor com os pais e não ter acesso à residência própria. “Não acho legal. Quer dizer, sou muito grato aos meus pais. Mas é uma situação constrangedora. Vim para Brasília ainda bebê, em 1963. Estou aguardando por uma coisa que eu lutei muito para ter”, relata o autônomo.

De acordo com ele, a falta de definições concretas para os cadastrados no programa é motivo de transtornos e frustrações.

“Eu acho estranho ficar iludindo as pessoas. Quando você está apto, conclui que vai receber o lote rápido. Aí, você gasta em cartório, no meu caso foram R$ 200. Vai à Codhab várias vezes, volta, e nada. É tudo uma ilusão”, completa. 

Ponto de vista
O doutor em sociologia urbana  da UnB Benny Schvarsberg  diz que o déficit habitacional está ligado à migração e ao número e preço dos imóveis à venda. “A vinda de gente para o DF nos últimos anos foi maior que a média brasileira”, disse. Para ele, quem cresceu aqui acompanha a tendência de diminuir a quantidade dos componentes do lar. Ou seja, não é maioria na necessidade de moradias.

Saiba mais
O prazo de cadastro no Programa Morar Bem se encerrou no dia 7 de dezembro do ano passado. Não há previsão de reabertura das inscrições.

Segundo pesquisa do Ipea, divulgada em 2013, o déficit habitacional no DF vem aumentando ao longo dos anos. Na região, em 2007, 96,2 mil domicílios eram necessários para acabar com o problema. Em 2012, o número saltou para 116 mil novas residências.

Fonte: Da redação do Jornal de Brasília

6 de fevereiro de 2015

Daiane Oliveira, mãe coragem



Andar alguns quilômetros pela rua de estrada de terra que separa a casa de Daiane Silva Oliveira, 25 anos, da parada de ônibus mais próxima não é a principal dificuldade dela. Todos os dias, ela luta para conquistar nem que seja uma pequena melhora na vida das filhas. Daiane é mãe de Alice Vitória, 2 anos, tetraplégica, e de Larissa, 2 meses, prematura internada no Hospital da Criança. Daiane colocou de lado o sonho de ser fisioterapeuta para se dedicar exclusivamente às filhas. Mas, como ela e o marido estão desempregados, os obstáculos cresceram.

Daiane não sabia, até o nascimento da filha mais nova, que tinha insuficiência cervical, quando a mulher não consegue suportar o peso de uma gravidez. Tanto que as duas meninas chegaram com 26 semanas de gestação. Quando Alice Vitória nasceu, ficou internada três meses, pois, além de ser prematura, sofreu duas crises hemorrágicas. Passado o primeiro susto, a família foi para casa. Daiane ainda morava em Goiânia com o pai da criança. “Mas ele não aguentou as dificuldades e nos separamos”, conta. Com a bebê no colo, a mãe voltou para Brasília. Agora mora com os pais em São Sebastião.

Acolhida pela família, Daiane começou a notar algo na pequena Alice Vitória. “Ela era muito molinha e não fazia os movimentos normais para a idade. Comecei a desconfiar.” Na busca por uma resposta, procurou vários hospitais até ser encaminhada para a Rede Sarah, onde a filha passou por um exame de ressonância magnética. Depois de alguns meses, veio o diagnóstico: tetraplegia. “As hemorragias que ela teve quando nasceu levaram a isso. Ela não tem coordenação nos quatro membros e não segura o pescoço”, explica. “Foi dolorido. Queria vê-la engatinhar, andar e falar.” 

Daiane abandonou o trabalho como operadora de caixa e passou a se dedicar 24 horas à primogênita. A rotina de Alice Vitória se divide entre a televisão e os brinquedos em casa, as atividades do Sarah, como hidroterapia, nutricionista e pediatria, e as consultas no Hospital da Criança. “Agora, tudo o que eu tenho é para ela”, conta. Apesar do amor incondicional que as duas trocam nos olhares e que alegra os dias da mãe, no fundo, resta uma grande incerteza para Daiane. “Como a lesão foi muito grande, acho que ela não vai se desenvolver muito. O médico disse que, se até os 7 anos, ela não melhorar, vai ficar como está.”

Além de todas as dificuldades, Daiane se emociona ao comentar a “humilhação” que passa nos ônibus. “É muito difícil porque não temos uma cadeira ou um carrinho adaptado para ela. Então, tenho de ir com ela no colo e levo um outro carrinho. As pessoas ficam olhando e ninguém ajuda”, lamenta. Alice não pode ficar sem o acompanhamento médico. Segundo Daiane, ela é considerada desnutrida, e os médicos avaliam se precisará de uma sonda gástrica. 

Desde que descobriu o diagnóstico de Alice, a jovem quer, a todo custo, garantir o bem-estar da filha. Ao ver a importância do cuidado com a filha tetraplégica, Daiane chegou a construir o sonho de cursar fisioterapia. “É pelo tanto que é prazeroso ajudar uma criança assim. Mas não posso realizá-lo, pois preciso cuidar das meninas”, justifica.

Dúvida
Quando voltou para Brasília, Daiane conheceu o marido, Lenieberson Alves, 33 anos. Os dois alugam uma casa em um condomínio de chácaras próximo a São Sebastião. O endereço afastado, mais barato e sossegado, é bom para Alice Vitória, que se estressa com barulho. A residência tem poucos móveis. Há tevê e geladeira, mas faltam mesa e sofá. 

Com Lenieberson, a mulher teve Larissa. Mais uma vez, os obstáculos apareceram na vida da família. A bebê nasceu prematura e precisou ficar internada no Hospital da Criança para acompanhamento. “Tem dia que as enfermeiras me ligam dizendo que ela está carente, mas, com a Alice em casa, fica complicado. Às vezes, a minha mãe vem me ajudar e eu consigo ir lá”, comenta. Nos primeiros dias de vida, a caçula também teve uma crise hemorrágica, mas, segundo Daiane, a filha não teve sequelas. 

Agora, o casal aguarda a liberação da menina. A única certeza é de que a pequena precisará de ajuda de um tubo de oxigênio para respirar. Daiane sabe que as filhas dependerão dela para toda a vida. A mãe espera na rede pública uma cirurgia para evitar uma nova gravidez, pois sabe que não tem condições. “Ter um filho especial precisa de força e determinação. É acordar cedo e não poder adoecer. É deixar de realizar sonhos e se doar. Não me arrependo, mas queria fazer mais por elas e por mim”, conclui.

"Ter um filho especial precisa de força e determinação. É acordar cedo e não poder adoecer. É deixar de realizar sonhos e se doar. Não me arrependo, mas queria fazer mais por elas e por mim”

Daiane Silva Oliveira, 
25 anos, mãe de Alice Vitória e de Larissa

Ajude
Quem quiser prestar assistência à família de Alice Vitória e Larissa pode entrar em contato com a mãe das meninas, Daiane, no telefone 9190-7465.


5 de fevereiro de 2015

Talento de São Sebastião na sapatilha



Força, foco e fé. Qualquer treinador, seja esportivo, seja acadêmico, costuma pedir que os alunos tentem cultivar essas características. Entretanto, às vezes, isso não é suficiente. Acostumado a ensaiar até seis horas por dia, o bailarino Rafael Souza Rodrigues, 18 anos, tem todos esses atributos: é talentoso e esforçado, não mede sacrifícios para viver da dança. Ele foi selecionado, em 2013 e 2014, para participar de um prestigiado curso de verão nos Estados Unidos, na American Academy of Ballet — mas não teve dinheiro para viajar. Agora, novamente aprovado para estudar no exterior, Rafael tem até 10 de fevereiro para depositar US$ 500 na conta da National Ballet Academy, em Denver, também nos Estados Unidos, e reservar a vaga. Será necessário, ainda, desembolsar US$ 7 mil referentes à hospedagem na academia.

O programa em que foi selecionado é promissor. Se for feito com dedicação, rende possibilidades reais de contratação. “É uma profissão muito efêmera. Quando você se muda, a realidade é outra. Se ele for, poderá viver com conforto, realizar trabalhos importantes e ajudar a família”, explicou a coreógrafa Regina Corvello, instrutora do jovem no Colégio Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Lago Sul. Mas quase nada é pago pela National Ballet Academy. Para passar um ano aperfeiçoando as técnicas, será necessário pagar aluguel de 7 mil dólares. “Não tenho condições e, por isso, peço que as pessoas me ajudem. Se der certo, vou trazer muito conhecimento. Quero aproveitar essa oportunidade, mas, sozinho, não dá.”, garantiu.

As passagens de avião foram presente de uma das professoras de Rafael, docente da Escola Classe do Lago Sul, onde o rapaz cursa o 3ª ano. Ela ficou sensibilizada com a história e a garra do aluno. Para comer, será necessário desembolsar US$ 40 por semana. “O dinheiro está sendo amealhado. Há pouco tempo, o Rafa fez um trabalho e recebeu R$ 500. Vamos trocar por moeda americana, juntar e destinar à alimentação dele”, explica Regina. Ela própria custeia o transporte de Rafael. São R$ 5 às segundas, às quartas e às sextas, e R$ 12 aos fins de semana. “Fico feliz porque as pessoas daqui me acolhem. Homem que dança balé sofre preconceito”, diz o jovem.




Para romper a barreira do idioma, Regina pediu à filha Nathália, que é tradutora, para dar aulas de inglês para Rafael. Mas o jovem, empolgado com a oportunidade de viajar e melhorar de vida, nem pensa nos problemas. “Vou me esforçar para aprender. Tenho força de vontade. Se não conseguir entender nada, fico amigo dos brasileiros. Deve ter outros lá.”

Morador de São Sebastião, Rafael diz que a região é marcada pela intolerância, e que a vida inteira sofreu discriminação. “As pessoas ainda resistem. Por isso, tinha vergonha de dizer que dançava. Um dia, resolvi participar do concurso de talentos da escola e mostrei a eles (os colegas) o que eu tinha de melhor. Hoje, as pessoas sabem e entendem.” Filho de uma cabeleireira, ele foi criado sem a presença do pai. “Eu tenho todo o apoio da minha mãe. Sempre soube que não tínhamos dinheiro, mas aprendi a ter perseverança.” 

A carreira de Rafael começou há pouco tempo. No início, encarava a dança como brincadeira. “Há mais ou menos quatro anos, minha prima me chamou para brincar na igreja que frequentávamos, em São Sebastião. Nesse dia, uma amiga da tia Regina (a coreógrafa) pediu para me ver dançar. Fui indicado por ela e comecei a dançar aqui.” O garoto, na época com 14 anos, fez um teste e passou. Agora, treina pelo menos três vezes por semana com Regina Corvello.

O bailarino acorda por volta das 7h e treina por três horas em casa. Depois, vai para a escola e, no fim do dia, pega um ônibus até o Colégio Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, onde permanece por mais quatro horas dançando. Nesses quatro anos, participou de audições em outros estados e em Brasília — sempre bem colocado. Nos pés, estão as marcas do esforço. “Às vezes, preciso colocar esparadrapos para não ficar muito machucado. Mas, na hora da dança, não sinto nenhuma dor. Só coisas boas.”

Memória
Um brasileiro no Bolshoi

Em 2010, uma reportagem do Correio contou a história de David Motta Soares. Com 13 anos à época, o garoto tinha sido aprovado para a estudar balé na Rússia, mas a família não tinha condições financeiras de bancar a viagem. Com a ajuda dos leitores, ele conseguiu o dinheiro necessário para pagar os custos do traslado, da hospedagem e da alimentação, e, assim, aprender as melhores técnicas de dança na Academia Bolshoi, tida como a mais importante do segmento no mundo. 

Na época, foi noticiado que ele era o primeiro brasileiro aceito naquela instituição. Cinco anos depois, o menino se tornará, no fim do ano, o único homem nascido no Brasil graduado no Bolshoi. Coincidentemente, David, assim como Rafael, foi aluno da coreógrafa Regina Corvello — responsável ainda hoje pelo custeio de alguns gastos que ele tem no exterior. Sem apoio do pai e da avó, ele contava apenas com a compreensão da mãe, uma lavadeira. Hoje, quase formado, recebeu um convite para trabalhar na Alemanha e não pretende voltar ao Brasil. 

Ajuda
Quem quiser colaborar com o projeto de Rafael pode entrar em contato pelo telefone 9535-8623.

29 de janeiro de 2015

E as margens do Lago Paranoá? De quem são de fato?

Muros de alvenaria e píeres de madeira e pneus no parque da Ermida Dom Bosco
A conta pela ocupação irregular da orla do Lago Paranoá não recai somente sobre o Governo do Distrito Federal. Alguns moradores que ocupam indiscriminadamente a beira do espelho d’água respondem criminalmente pela ação. Hoje, há 420 pedidos de investigação policial feitos pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) sobre o desrespeito aos limites do reservatório. Desses, 75 chegaram à Justiça após a conclusão do inquérito, e os proprietários foram processados. Na última semana, o Tribunal de Justiça do DF e dos Territórios (TJDFT) aceitou mais uma denúncia contra um morador da QL 12 do Lago Sul.

Ao acatá-la, o TJDFT revogou decisão tomada em fevereiro do ano passado. Na época, a 2ª Vara Criminal de Brasília não considerou a orla como área de proteção permanente (APP). A sentença teve como base o novo Código Florestal, que não a caracteriza como APP por se tratar de um lago artificial com função de abastecimento energético. O MPDFT recorreu, e a 1ª Turma Criminal decidiu a favor do órgão na semana passada, seguindo legislações anteriores. “Está claro de que não adianta o juiz dizer que não é crime porque o tribunal disse que é. As pessoas devem estar cientes de que não ficarão impunes”, afirmou o promotor de Defesa do Meio Ambiente (Prodema), Roberto Carlos Batista.

Em meio aos trâmites judiciais, as ocupações na orla do Paranoá continuam à vista de todos. Irregularidades apontadas em laudo técnico do MP em 2011 permanecem até hoje. À beira do lago, é possível identificar cercamentos e construções como atracadores, píeres, rampas de acesso e muros de arrimo, tudo para ampliar a área de lazer dos proprietários de terrenos às margens do espelho d’água. Na última denúncia aceita pelo TJDFT, o dono de uma casa na QL 12 do Lago Sul construiu píer, mureta, cabana e rampa de acesso às margens. Procurado, o morador preferiu não comentar o caso e disse desconhecê-lo.

Quando um caso de ocupação irregular da orla chega à Justiça, o MPDFT pode propor ao morador uma conciliação e evitar o processo criminal. O órgão não tem um levantamento de quantos proprietários aceitaram a alternativa. Existem cerca de 30 casos de suspensão do processo, mas não há como estabelecer se todos são referentes a construções ilegais. “Estabelecemos algumas condicionantes, como a reparação do dano. Se forem aceitas, o processo é suspenso, e o dono tem até dois anos para atender as exigências”, explica o promotor Roberto Carlos.
Fonte: Correio Braziliense. Acesso em 29/01/2015.

28 de janeiro de 2015

PM apreende adolescente com maconha em reserva ambiental


Policiais militares apreenderam nesta segunda-feira (26) um adolescente dentro de uma reserva da Caesb em São Sebastião, no Distrito Federal, com 700 gramas de maconha.Segundo a corporação, os PMs faziam patrulhamento de rotina no Setor Residencial Bosque quando avistaram três suspeitos.
O trio tentou fugir, mas o adolescente acabou apreendido. Os outros dois homens conseguiram escapar por uma região de preservação ambiental de difícil acesso.Além da droga, os policiais apreenderam uma balança de precisão, três facas e um rolo de papel para embalo da droga. O adolescente tinha várias passagens na Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA).

9 de janeiro de 2015

Fraude no Jardins Mangueiral

Sites anunciam negociatas com imóveis de várias metragens e preços no Setor Habitacional Jardins Mangueiral: crime financeiro e estelionato
O programa habitacional Morar Bem, criado pelo GDF para abrigar pessoas de baixa renda, virou alvo de estelionatários. Beneficiários dos imóveis no Setor Habitacional Jardins Mangueiral, em São Sebastião (leia Para saber mais), anunciam o aluguel e a venda das unidades ilegalmente. Pela internet, é possível encontrar e negociar preços de casas e apartamentos com os próprios contemplados e corretores de imóveis. A prática, segundo a Polícia Civil, configura estelionato e crime financeiro, o que não impede as irregularidades. Mesmo assim, ninguém ainda foi preso.

Segundo os contratos firmados entre os beneficiários e a Caixa Econômica Federal, é irregular transferir o imóvel a terceiros por pelo menos 10 anos. Desde maio do ano passado, a PCDF tem uma investigação em aberto para o Jardins Mangueiral. A Promotoria de Defesa do Patrimônio Público Social (Prodep) também apura o caso em um inquérito civil público de 2010. “A prática é proibida. As investigações continuam porque é necessário localizar os corretores e identificar os envolvidos. Vamos intimá-los a prestar depoimento”, afirmou o coordenador substituto de Repressão aos Crimes contra o Consumidor, a Ordem Tributária e a Fraudes (Corf), delegado Joás Rosa de Souza.

Odair preside a Associação de Amigos do Mangueiral: falta controle

Na internet, há sites com propostas e preços. O aluguel de uma casa de 52 metros quadrados com dois quartos está entre R$ 1 mil e R$ 1,2 mil. O valor da locação de uma unidade de 68m² com três cômodos é tabelado em R$ 1,5 mil. O aluguel de um apartamento padrão de 46m² e dois quartos custa R$ 900.

Em um dos anúncios, um homem aluga a casa de dois quartos por R$ 1,1 mil. Para fechar o negócio, ele exige dois fiadores, um com imóvel, seguro-fiança e depósito de três meses. Sem saber que conversava com o Correio, ele confirmou que “poder, não pode alugar. A lei não permite, mas tem muita gente alugando, e isso depende de cada um. A questão é não falar com os moradores que você alugou a casa”.

No mesmo site, outra pessoa propõe a permuta de um imóvel de três quartos na região por um imóvel em Taguatinga, em Águas Claras, em Vicente Pires, no Guará, em Ceilândia ou em Samambaia. No caso de nenhum negócio fechar, o beneficiário não descarta a possibilidade de alugar o local. “Falta colocar o piso e, se eu não achar nenhuma permuta, alugo. O condomínio é fechado, com segurança armada o tempo todo”, explicou.

Risco
Entre os negociadores, há corretores de imóveis. Um deles mantém uma empresa em Brazlândia e anuncia o aluguel de um apartamento por R$ 900, com taxa de condomínio de R$ 200, inclusas as despesas com água e gás. “A maioria (dos moradores), 90% deles, aluga porque está arcando com o financiamento de R$ 1 mil a R$ 1,5 mil. Muitos usam o dinheiro do aluguel para pagar o apartamento”, contou à reportagem. 

Na região, também é fácil encontrar quem vendeu a propriedade. Por telefone, um homem confirmou que comercializou a casa dele de três quartos por R$ 100 mil há cerca de 15 dias. Uma auxiliar de limpeza de 39 anos mora no setor há dois anos. Ela ficou na lista de espera há cerca de 15 anos até ser contemplada com uma residência. “Tenho vizinhos que arrumaram o imóvel e alugaram. Outros fazem a venda de gaveta, que é para ninguém ficar sabendo. Quem tem mais dinheiro tira a oportunidade dos assalariados que estão na fila de espera”, lamentou.

O presidente da Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (Codhab), Gilson Paranhos, alertou que beneficiários do Jardins Mangueiral que alugam ou vendem o imóvel podem perdê-lo. “A Codhab planeja uma atuação na região. Se não agirmos, vamos colocar todo trabalho em risco, produzindo habitação para ricos”, garantiu. O presidente da Associação dos Amigos do Jardins Mangueiral, Odair Coronheiro, alegou que a entidade não tem poder para controlar a prática ilegal.

Beneficiados
Dez mil unidades habitacionais do Programa Morar Bem foram entregues durante o governo anterior nas regiões do Jardins Mangueiral, de Samambaia, do Riacho Fundo, do Paranoá, da Estrutural, da Vila Dnocs, em Sobradinho, e no Setor Habitacional Sol Nascente, em Ceilândia.

Para saber mais
Região em construção
No Jardins Mangueiral, em São Sebastião, existem 3,2 mil unidades de apartamentos de dois quartos, 1.602 casas de dois cômodos e 3.198 residências de três quartos. No total, são 8 mil imóveis na região. Do total, cerca de 6 mil propriedades estão ocupadas, segundo a Associação dos Amigos do Jardins Mangueiral. Isso significa que entre 15 mil e 18 mil pessoas vivem na região. As pessoas habilitadas a adquirir imóveis no setor poderão perder o benefício caso sejam comprovadas as fraudes. O crime financeiro tem pena de 2 a 6 anos de prisão, pois oferece destinação diversa prevista em contrato a recurso proveniente de financiamento. A pena para estelionato varia de 1 a 5 anos de reclusão.

7 de janeiro de 2015

Artista de São Sebastião se destaca com mosaicos


 

O pedreiro Willam Pereira, de 32 anos, encontrou em restos de material de construção o meio para produzir arte, na forma de mosaicos. Fã de Athos Bulcão, ele passa até dois dias trancado em seu ateliê trabalhando e diz já ter recebido convites para expor na Inglaterra. Pereira não tem curso na área e conta que aprendeu a fazer mosaicos "por acaso", enquanto trabalhava com cerâmicas em uma obra, há seis anos.

“Estava fazendo assentamento de cerâmica quando uma peça caiu e se partiu em mil pedaços”, diz. “Fiquei observando na hora e me veio a ideia. Pensei: ‘Que bacana, vou tentar’, e fui fazendo. Abandonei tudo que estava fazendo e caí de cabeça nesse trabalho. Vinha na mente imagens, desenhos, e fui testando assim. Meu primeiro desenho foi uma coruja.”

Pereira, que é pedreiro desde os 13 anos e não concluiu o ensino médio, diz que aprendeu tudo o que sabe experimentando e por meio da internet. “Fui pesquisar mais sobre essa arte e descobri que tinha nome: mosaico. É uma das artes mais conceituadas do mundo.”

Para buscar cores diferentes e incomuns para compor as imagens, Pereira diz que vai a um lixão perto dos Jardins Mangueiral. “Quando faltam pedaços coloridos para fazer uma imagem, busco lá o vermelho, amarelo, que é mais difícil de achar”, diz. “Se vou no lixo e vejo algo que pode ser reaproveitado, vou lá e faço. Tudo é um quebra-cabeça. Não tem limite de tamanho, faço mesa, quadro, até mural para parede.”


Para poder trabalhar, o pedreiro aluga uma quitinete por R$ 400 mensais que usa como ateliê. Ele conta que passa dias imerso no trabalho, ouvindo música e se dedicando a projetos. “Tem vezes que viro a noite e vou trabalhar igual um zumbi, sem dormir, porque isso exige muita paciência, técnica e concentração para sair perfeito”, diz. “Às vezes, saio do trabalho e venho direto para cá. Fico até 2h, 3h da manhã fazendo.”
“Já fiquei dois dias trancado no quarto. Estava parado, desempregado, as contas chegando, quando, graças a Deus, saiu uma encomenda: uma mesa enorme para a Escola de Música de Brasília. Recebi R$ 1,2 mil", conta. Apesar disso, a maior parte das obras que ele faz é vendida por valores bem abaixo do preço de mercado.

Pereira conta que fez amizades com artistas de todo o mundo pela internet e que não conseguiu expor seu trabalho na Inglaterra porque não tinha recursos. “Não tive como ir, não tinha como. Não tinha dinheiro e nem passaporte”, diz. “Mas é bacana saber que seu trabalho é reconhecido por pessoas do primeiro mundo, que valorizam a arte”.


Sonho
Além de sonhar viver da arte, o pedreiro diz que deseja fazer grandes obras em lugares públicos, como estações de metrô, a exemplo do que viu em fotos tiradas em países europeus. “Quantos mosaicos eu não poderia fazer, de personalidades, imagens de presidentes, pessoas ilustres, que fizeram história na política? Poderia usar esse talento levando arte para os lugares”, diz. “Não tem nenhum custo, gastei R$ 2 com cimento para fazer uma peça, o resto acho no lixo.”

Para conseguir reconhecimento do governo local como artista, no entanto, Pereira precisou insistir muito com a Secretaria de Cultura. “Demorou três meses, insisti muito, cheguei a chorar. Fui todos os dias até eles enjoarem da minha cara e me darem o documento”, diz. “É muito sacrifício para o artista provar que faz arte. Com o documento você tem mais oportunidades, pode participar de exposições, fazer murais.”

“Quero muito mostrar o meu trabalho. Entro na internet e vejo pessoas do Brasil mesmo, ou até fora do país, com trabalhos bem simples, de iniciantes, ganhando prêmios. Eles são reconhecidos, mas eu fico para trás”, diz. “Quero justiça para os artistas brasileiros. O artista é muito excluído no Brasil.”


Desestimulado com a falta de oportunidades, ele diz que já pensou em abrir mão do talento. “Já tentei desistir, disse que não ia trabalhar mais com isso. Existe também muito preconceito por conta do meu estilo, do meu jeito de ser, por não participar de exposições com pessoas que tem diplomas na Grécia, em Roma”, diz. “Mas é uma arte milenar, uma das artes mais ricas do mundo. Guardar esse dom e não utilizar, é desperdício.”

Apesar de sonhar com o reconhecimento, Pereira diz que gosta muito do trabalho, e que tem outros dois talentos: também trabalha como pintor e serralheiro. “Muitos na obra dizem: ‘Você é um artista, sai daqui’. Mas eu gosto de trabalhar, gosto do trabalho manual, de estar me movimentando. Quanto mais difícil, mais gosto.”

O pedreiro diz que, para conceder a entrevista ao G1, foi dispensado pelo chefe durante o dia na obra em que trabalha. “Ele me incentivou, disse que o mundo precisa ver o que faço”, diz.

Fonte: G1/DF