Nascentes precisam de cuidados

Um terço das nascentes catalogadas no Distrito Federal agoniza à espera de socorro. Vítimas da ocupação
desordenada, do descaso com o meio ambiente e da falta de consciência ecológica, pelo menos 100 olhos d’água, a maioria em área urbana, sofrem com assoreamento, acúmulo de lixo e desmatamento. Em alguns casos, as regiões que eram para ser de proteção permanente viraram tanques de lavar roupa a céu aberto e locaisde banho coletivo. Aos poucos, nascentes perdem vazão e, a qualquer momento, podem secar.

O Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos do DF (Ibram), ligado ao governo local, estima que existam mais de mil nascentes espalhadas na cidade. Das 300 identificadas até aqui, 199 foram adotadas desde 2001, quando surgiu o programa Adote uma Nascente. Isso quer dizer que essas, bem ou mal, são monitoradas e recebem o mínimo de cuidados por parte de pessoas ou empresas que, voluntariamente, resolveram ajudar de alguma forma. Nas restantes, a equipe de cinco funcionários do Ibram responsável por cuidar das nascentes não consegue impedir a degradação.

Há 12 anos, um olho d’água resiste ao abandono na entrada de São Sebastião. Capins braquiaras invadiram as margens. Ali, duas bombas de sucção foram instaladas. Elas abastecem pelo menos quatro casas próximas. “Tem a água que vem da rua, mas essa é limpa e geladinha. E é de graça”, comentou o ajudante de pedreiro Devanes Ferreira, 32 anos. O que ele e outras pessoas fazem pode ser enquadrado como roubo de água.

Do outro lado da rua, outra nascente, a Morro Azul, está ameaçada, apesar de ter sido adotada em 2007 pelo servidor público José Carlos Maciel, 42. Na época, ele plantou 50 mudas de vegetação nativa e fez mutirão para limpar a área. Ontem, voltou ao local e o encontrou cheio de sacolas plásticas e garrafas de vidro. Cascalhos da região, segundo ele, foram retirados para construir as ciclovias ali perto. O projeto de um condomínio a ser construído nas proximidades já foi aprovado. “Essa é uma nascente condenada”, lamentou.

A coordenadora do Adote uma Nascente, a bióloga Vandete Maldaner, diz que em 2009 a meta é convencer os adotantes do compromisso que precisam ter com as nascentes. No fim do ano passado, o programa recebeu R$ 43 mil da Fundação de Apoio à Pesquisa (FAP) do DF. O dinheiro será aplicado
em estudos para monitorar a qualidade da água e a vazão nas minas já adotadas. “Queremos nos preocupar mais com a qualidade das adoções do que com a quantidade”, resumiu Vandete.

Bom exemplo
O síndico do condomínio Jardim Botânico V, José Máximo de Oliveira, 56, é exemplo a ser seguido. Em 2006, adotou a nascente que fica no residencial e, desde então, a mantém preservada, sem entulhos que antes a sufocavam. Plantou cerca de 100 mudas e impediu qualquer construção nas redondezas, escalou um funcionário para fazer limpeza periódica e espalhou placas pelo local lembrando os 1,5 mil moradores de que ali, em meio às 310 casas, há uma nascente.

Adotar um olho d’água requer mais que boa vontade. Os interessados precisam arcar com os custos da preservação, como colocar placas e cercas, comprar mudas para reflorestar o local e impedir a invasão dos 50m destinados à área de preservação permanente (APP). Oliveira não quis nem falar em dinheiro: “Foi coisa pouca. Consegui umas mudas com a administração, não gastei quase nada”. “Não tem segredo. É só fazer a nossa parte que a natureza faz a dela”, completou, ao exibir o certificado de adotante.

A idéia de convocar a população para salvar as nascentes serviu de modelo para a WWF-Brasil. Em março do ano passado, a ONG lançou o programa Nascentes do Brasil, que segue a mesma lógica da iniciativa distrital. “Proteger as nascentes ajuda a diminuir custos de tratamento e melhora a qualidade da água. Mas as pessoas esquecem que a água não vem da torneira”, comentou o biólogo Samuel Barreto, coordenador do programa Água para a Vida do WWF-Brasil.
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