São Sebastião: porque tantas nascentes?

Um reservatório subterrâneo que alimenta rios e córregos e um lençol freático farto transformam a cidade num veio de soluções de abastecimento, mas estragam ruas, mofam paredes e muros das casas

Na cidade de São Sebastião a água brota abundante do solo. Em bairros próximos aos córregos ou no alto da cidade, não é preciso cavar mais do que 20cm para ela aparecer límpida e cristalina. Por lá, morador ter nascente jorrando no quintal de casa é tão comum quanto ter água encanada saindo da torneira na cidade grande. O que à primeira vista parece um privilégio, torna-se um problema. A água das nascentes abre caminho entre as casas, corre sobre as ruas e abre regos em lotes vagos até desembocar nos rios da região. No trajeto, arranca pedaços de asfalto, apodrece muros e deixa as residências úmidas e com cheiro de mofo.

É fácil entender porque em São Sebastião existe tanta fartura de água. A cidade se expandiu sobre uma área de recarga de aqüíferos — um reservatório de água subterrâneo responsável pela perenidade das nascentes e dos córregos — e o lençol freático fica quase à flor da terra. Mas nem a Companhia de Água e Esgoto de Brasília (Caesb) nem a Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh) conhece a sua extensão.

Cercada por morros e pelos córregos Mata Grande e Agudo e pelo Ribeirão Santo Antônio da Papuda, as primeiras casas da cidade surgiram em 1957 quando se instalaram as olarias que forneciam telhas e tijolos para a construção de Brasília. As obras da nova capital foram concluídas, mas as habitações populares de São Sebastião, não. As casas se multiplicaram em torno das cerâmicas, algumas em operação até hoje e o
povoado virou cidade.
 
Surpresa
ALBERTINO E MARIA DESCOBRIRAM UM OLHO D’ ÁGUA NO QUINTAL DA CASA
O casal de aposentados Maria Helena e Albertino Macedo, 55 e 57 anos, comprou um lote no bairro Vila Boa, há quatro anos. Eles nem suspeitavam do que estava por vir. Um ano depois, a água começou a descer morro abaixo, invadiu o terreno e nunca mais secou. No trajeto abriu uma vala de aproximadamente 70cm de largura quintal e depois ganhou a rua até se espalhar num lote vago em frente à casa deles. Mas não se incomodaram com o fato. “Eu pensava: é uma dádiva de Deus ter uma coisa tão bonita assim, pertinho da gente. À noite, é uma beleza dormir com o barulhinho da água no ouvido”, vibra Albertino.

Mas nem tudo foi alegria. O casal percebeu um detalhe com preocupação: após a chegada da água encanada na cidade, a nascente ficou mais farta. E com a chuva deste ano, o veio começou a incomodar o vizinho do lado porque a água passava rente ao muro lavando a terra e colocando em risco a estrutura. Albertino procurou a Administração Regional de São Sebastião para saber o que fazer. Depois, funcionários do governo colocaram manilhas para canalizar a água que corria perto do muro. “Agora não tem mais problema. A gente fica é muito feliz em ter uma beleza dessa em casa”, alegra-se Maria Helena.

Sem qualquer projeto urbanístico, as residências foram erguidas em Áreas de Preservação Permanentes (APP), como nascentes, margens de córregos e sobre veredas. O Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA-Rima) é de 1994 e, já naquela época, alertava as autoridades para as conseqüências da consolidação definitiva do núcleo urbano. Em um dos trechos do documento, os técnicos escreveram que “os impactos gerados pela cidade poderão degradar a qualidade de água do Rio São Bartolomeu, que é um dos principais mananciais para o abastecimento de água do Distrito Federal”.

Durante muitos anos, a prioridade do governo era usar o Rio São Bartolomeu para captar a água destinada ao abastecimento de Brasília. Para isso seria construída uma barragem que inundaria parte das terras sobre as quais a então Vila de São Sebastião nasceu e se exapndiu. Os planos tiveram de ser mudados porque a expansão da ocupação inviabilizou o projeto. A exemplo dos 513 parcelamentos irregulares do Distrito Federal, a ocupação humana era uma realidade e a saída encontrada pelo governo foi a legalização. Atualmente são 130 mil habitantes, 84 mil deles vivendo na área urbana e os demais na área rural. Os problemas de hoje são um reflexo do desrespeito ao meio ambiente.

Promessa
Em troca da regularização, o governo deveria, entre outras coisas, preservar a vegetação nativa e adotar medidas de proteção das cabeceiras e nascentes dos corpos d’água. Passados 12 anos, o que se percebe é que muitas exigências ficaram apenas no papel. Não existe nenhum estudo sobre a qualidade da água subterrânea nem das nascentes. Mas já se sabe que os córregos estão poluídos. O lixo doméstico e entulhos estão espalhados pelas margens. Em alguns trechos as matas ciliares foram dizimadas e há assoreamento.

Os problemas foram detectados por agentes da Subsecretaria do Sistema Integrado de Vigilância, Preservação e Conservação de Mananciais (Siv-Água) num levantamento, em outubro passado. Segundo Cristina Arantes, bióloga especialista em águas continentais e coordenadora da pesquisa, ainda existe lançamento de esgoto dentro do córrego que corta a cidade, e fossas muito próximas às margens. “O diagnóstico de monitoramento da água do Córrego Mata Grande aponta a presença de matéria orgânica e uma forte tendência à eutrofização (processo de contaminação de um corpo de água por matéria orgânica em decomposição). É preciso acabar com a contaminação o quanto antes”, alertou.

Ameaça no subsolo
A falta de cuidado com os recursos hídricos não afeta apenas quem mora em São Sebastião. Os três córregos que cortam a cidade são afluentes do Rio São Bartolomeu, que acaba afetado pela poluição. E como o lençol freático é raso, a cautela com o adensamento populacional precisa ser redobrada, alerta o geógrafo Júlio Ferreira da Costa Neto, professor do Centro Universitário de Brasília (UniCeub). Quanto mais casas, mais calçadas, mais asfalto e maior é a impermeabilização do solo. O professor explica que se a água da chuva não se infiltra na terra, o depósito subterrâneo —aqüífero — começa a secar. “Se isso acontece, as nascentes vão desaparecer e, futuramente, até os córregos podem secar caso não sejam dotadas medidas de preservação.”

EMI ALVES GARANTE QUE A ÁGUA DA NASCENTE DE SUA FAZENDA É PURA
Esta não é a única ameaça. A cidade está cercada por condomínios irregulares que também captam água por meio de poços e que não contam com sistemas de esgotamento sanitário. Mas há quem confie tanto na pureza da água que dispensa o filtro e mata a sede direto na bica. É o caso da família da aposentada Emi Maria Alves, 71 anos. Na década de 80 ela mudou-se para São Sebastião com o marido e os filhos. A propriedade é banhada por duas nascentes. Uma delas corria na porta da cozinha, mas foi canalizada e transformada em bica. No bairro Morro Azul, a água escorre de janeiro a janeiro pela rua da Quadra 11. A dona-decasa Luzia Martins gosta porque as crianças brincam na água o dia inteiro, como a neta Fabiana. O mais visível dos problemas são os danos no asfalto que parece criar bolhas e na primeira chuva forte é arrancado pela enxurrada.
Tecnologia do Blogger.