Um convite à leitura - Por Francisco Neri




Por Francisco Neri

Atualmente vivemos numa era profundamente marcada pela coexistência dos mais modernos meios de comunicação – a chamada era digital e sua aparelhagem eletrônica – algo sem precedentes na história. E ao que tudo indica, a leitura vem, literalmente, perdendo o seu prazeroso “espaço” em nossos hábitos cotidianos. Num país em que a mídia eletrônica está presente na maior parte dos lares brasileiros - entre classes sociais as mais diversas - o computador, a internet, o celular e uma gama de produtos e serviços, além de uma série de aparatos e inovações tecnológicas à disposição da informação e da comunicação (nascidos à luz do passado e do atual século), vem facilitando bastante a vida de muitos brasileiros e ainda oferecem comodidade, entretenimento e lazer aos seus diversos usuários.

Diante de tantas opções disponíveis, torna-se realmente uma competição desleal e quase mesmo uma missão tentar resgatar as “ovelhas desgarradas” para o universo da leitura e despertar nelas a suma importância de tal prática social. E ainda mais quando estamos num país que não foge à tônica de que tal hábito por aqui ainda é um privilégio de alguns poucos, principalmente em se tratando de jovens e adolescentes. E não se trata de uma questão econômica ou social, mas de uma verdadeira praga do nosso universo cultural. A universalização do livro parece não ter atingido o seu principal objetivo: disseminar conhecimento a partir da expansão do número de leitores mundo a fora.

Como explicar o fato de um adolescente conseguir permanecer doze horas ininterruptas vidrado em um computador, fazendo mil e uma coisas, e o fato de o mesmo não suportar nem ao menos meia hora tentando ler um livro? Serão apenas os gostos, os recursos audiovisuais? O que o faz passar tanto tempo em frente a uma televisão? Mais uma vez, parece que o diferencial é mesmo a ausência de bons hábitos, resultantes do não-direcionamento dos pais. Ler é um hábito, assim como o de se levantar todo dia, escovar os dentes, tomar café. Quem não cultiva, não tem. E não basta apenas ler. E não adianta dizer que basta saber ler e está tudo resolvido. Engana-se quem achar que o problema seja tão simples como possa parecer. Não é por menos que o Brasil conta com a triste marca de mais de 14 milhões de analfabetos, e neste rol se encontram ainda aqueles considerados analfabetos funcionais, isto é, os que leem, mas são incapazes de interpretar enunciados, muitas vezes simples, e de usar a leitura e a escrita em atividades cotidianas, o que dificulta o seu desenvolvimento pessoal e profissional (Censo IBGE 2010).

A escrita e a leitura constituem as duas faces de uma mesma moeda. São interdependentes e complementares entre si. Poucos ou quase ninguém defende a idéia de que devemos viver em um mundo livre das influências tecnológicas, até porque seria muito complicado, mas a questão é que, torna-se essencial conciliar nossa vida com as atividades de estudo. E para isso, é essencial uma re-educação dos modos e da melhor maneira pela qual podemos desfrutar o nosso tempo. É preciso aprender a aprender.

A nossa literatura é rica e diversificada e bons exemplos estão ai a perder de vista. Escritores renomados como Machado, Lima Barreto, Drummond, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Cecília Meireles e inúmeros outros nos deixaram um vasto legado literário e um grande exemplo do real valor que a leitura pode representar em nossas vidas e como a mesma pode nos transformar em pessoas incríveis, sonhadoras, apaixonadas, expansivas, e ainda mais que isso, em pessoas autônomas e críticas. Vale aqui o lema de que é de pequeno que se aprende.

Há que se reconhecer que o sentido primordial da leitura não reside apenas no ato de se ler livros, revistas ou jornais. É bem mais que tudo isso. Ler pode ser compreendido como uma maneira particular de entender, participar e interagir com as pessoas e o mundo. É uma maneira alternativa de entrar em contato com novas ideias e conceitos, novas formas de pensamento, e a partir de tais descobertas, podemos construir nossas próprias concepções, nossa visão de mundo. Ler é, sobretudo, a via mais imediata de acesso ao conhecimento.

Em última análise, ler é o constante percorrer da ponte que nos leva ao encontro do nosso próprio ser, o nosso próprio eu. É o que ocorre, por exemplo, quando há uma interação entre leitor e texto. Quando nos aventuramos pelas páginas escritas e nos colocamos no lugar de quem nos conta ou vive uma história qualquer, no intuito de nos espelharmos nela, mesmo que seja real ou fictícia, podemos dizer que adentramos no fantástico universo literário. E vale lembrar o rifão que diz que quantidade nem sempre é sinônimo de qualidade.

Nestes tempos pós-modernos, o ato de ler ainda é tão essencial quanto já foi no passado e certamente também o será muito mais no futuro, e os assíduos leitores de hoje têm motivos de sobra para cultivar e incentivar esta deliciosa prática entre nós, pois uma vez fascinados pelo mundo da leitura, jamais se desprenderão do mesmo, jamais serão os mesmos. A leitura nos transforma, nos modela. Felizmente, ela tem este magnífico poder transformador, não apenas de mentes, mas principalmente de atitudes e ações. É ler para comprovar e se deleitar.

Participamos da vida social de várias maneiras e lendo é certamente uma delas, senão a principal. Cabe ressaltar ainda que o papel da leitura em nossas vidas, quando bem dimensionado e valorizado, faz do costume uma prática saudável, prazerosa e significativa, o que conduz a formação elevada do nosso gosto literário, estético e da sensibilidade, tanto para sentir quanto para entender o vasto e múltiplo mundo no qual vivemos. É poder contemplar a existência inteirinha com olhos e a espontaneidade de uma criança. Finalmente, “aprender a ler significa também aprender a ler o mundo, dar sentido a ele e a nossa própria existência - o porquê de estarmos aqui hoje, de sermos quem somos e o que ainda viremos a ser algum dia.

Francisco Neri é Licenciado em Letras e educador do Centro de Educação Popular de São Sebastião-CEPSS e toda semana tem uma publicação no blog do Morro Azul
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