Rede de solidariedade

Olimpíada internacional promovida por uma ONG de incentivo à educação seleciona o Projeto Garatuja, criado e desenvolvido em São Sebastião por uma bailarina voluntária, como beneficiário deste ano. Com isso, futuras bailarinas terão condições de investir em sua carreira.

Quando a música começa, o silêncio toma conta do galpão construído sobre piso de cimento. As risadas são substituídas pela concentração e pela seriedade, para mais um ensaio da turma de balé clássico. Rapidamente, as 20 bailarinas tomam posição. Antes que a ópera encha o salão, elas aproveitam os segundos restantes para ajustar a saia rosa e o collant, trajes confeccionados pela mãe de uma delas, e as sapatilhas de pano. Com braços erguidos, pernas levemente arqueadas e um sorriso, elas recebem a si mesmas, refletidas no espelho da sala, como se estivessem em pleno espetáculo.

A professora de dança e ex-bailarina Daniela Pereira Couto, 32 anos, acompanha o ensaio de perto. Marca o passo, cobra postura, dedica-se a cada aluna enquanto sonha com um futuro melhor para as 30 meninas assistidas pelo Projeto Garatuja. Criado por Daniela em 2007 com o objetivo de diminuir a evasão escolar em São Sebastião, o projeto é tocado com o apoio de seis professores voluntários que ensinam dança contemporânea e clássica a jovens de 10 a 15 anos, além de aulas de reforço escolar e acompanhamento pedagógico do desempenho delas nas escolas. Este ano, o Garatuja será o beneficiado pela Olimpíada Solidária de Estudo. O evento internacional promovido pela Ekloos, ONG de incentivo ao voluntariado e educação, reúne 34 bibliotecas participantes no Brasil, distribuídas em 12 cidades. O objetivo é converter em reais as horas de estudo acumuladas pelos visitantes das bibliotecas durante o mês de novembro. O valor contabilizado até o próximo dia 5 será doado pelas instituições participantes para o projeto social.

Para o Garatuja, ter sido escolhida a única instituição beneficiada pela olimpíada significará um grande salto para o projeto — além de várias piruetas e giros na ponta do pé. Com o valor arrecadado (que até ontem havia chegado a R$ 25,2 mil), a equipe pretende construir a sede do grupo. “Desde 2007, é um desafio garantir a permanência do Garatuja. Todos os anos, nos mudamos para um novo lugar, sempre emprestado”, conta Daniela. Desde janeiro, as aulas de dança ocorrem no Centro de Múltiplas Atividades de São Sebastião, durante a semana, e as aulas de reforço, em salas cedidas por uma escola de ensino fundamental, aos sábados. No novo prédio, as aulas de reforço poderão ser ministradas diariamente, sonho da professora de dança. “Desde o início, o objetivo é investir no talento dessas crianças e mostrar que elas são capazes. Mais do que formar bailarinas, eu sonho em ajudar a construir sua moral, afastá-las das ruas, formar filhas com ideais maiores do que os de seus pais”, conta.

Determinação
Ela vinha com os olhos brilhantes, como a fantasia azul recém-arrematada. “Eu não sei o que seria da minha vida sem o balé”, afirma Sandrynne Ferreira Rodrigues, de 11 anos. Quando ouve os primeiros acordes da música anunciar sua entrada no palco improvisado, limitado no chão com as sandálias das meninas, a bailarina respira fundo, os olhos marejados. Ao seu lado, está a amiga Daniella Úrsula Macedo, 12. As duas marcam o piso frio com toques leves e saltos vibrantes, como se fossem uma só estrutura de força e leveza. Rodopiam e a música termina, enquanto Daniella imagina seus giros no Teatro Bolshoi. “Essa é minha maior meta: me formar em balé na Rússia e chegar aos melhores palcos do mundo”, conta.

Por se destacarem no Garatuja e na escola, as duas jovens são monitoras do grupo e alunas bolsistas em uma conceituada companhia de balé de Brasília — vagas conquistadas com apoio da professora Daniela Couto. “Quando via minha irmã dançando, eu achava muito lindo e queria fazer igual”, lembra Sandrynne. Muito nova para entrar no Garatuja, a jovem não desistiu. “Eu tinha só 8 anos e as alunas começam com 10. A professora Dani me visitou e achou que eu levava jeito.” No balé do Garatuja desde 2008, Sandrynne sempre contou com o apoio da mãe. “Meu pai não mora conosco. Minha mãe se esforça para compensar, de todas as formas. Ela é pai e mãe para mim, está ao meu lado sempre.”

A determinação das alunas inspira a professora e ex-bailarina, pois suas histórias são semelhantes. Filha de empregada doméstica, Daniela Couto começou a dançar aos 5 anos. Aos 10, decidiu bater de porta em porta nas academias de dança, ao lado da mãe, em busca de apoio. “Nunca desisti do Garatuja para que essas meninas tenham mais oportunidade do que eu. Em vez de bater à porta da oportunidade, eu mesma quis levar a elas o sonho da dança”, resume.

Olimpíada
Em Brasília, três instituições estão participando da Olimpíada Solidária de Estudo: as duas bibliotecas do Instituto de Ensino Superior de Brasília (Iesb) — da Asa Sul e da Asa Norte — e a Biblioteca Lajedo, da 704 Norte. A biblioteca do Iesb Norte está em primeiro lugar no ranking nacional, com 4.265 horas de estudo acumuladas. Matheus Duarte, 18 anos, e Rodrigo Ferreira Cruz de Lima, 19, são alunos de administração e fizeram questão de contribuir. “É período de provas na faculdade e é comum montarmos grupo de estudo. Esta semana fizemos questão de preencher o ‘vale R$ 1’ a cada hora em que passamos na biblioteca”, conta Matheus. Para Rodrigo, o projeto é triplamente eficiente. “Nós ajudamos uma instituição, somos incentivados a estudar e as empresas que participam mostram como é importante ser voluntário”, defende o estudante.
 
A olimpíada começou em 5 de novembro passado e termina no próximo domingo. Este ano, 15 países participam do evento. A cada hora de estudo ou leitura dos voluntários nas bibliotecas credenciadas, os patrocinadores do projeto doam R$ 1 para ajudar um projeto social, na área de educação. Agora, o escolhido foi o Projeto Garatuja. As horas excedentes vão para a construção de quatro escolas no Haiti.
 
Publicado no Correio Braziliense em 03/12/2010
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