Varejo tira as drogas de cena em São Sebastião

As mais importantes lojas populares de eletrodomésticos e calçados do país ocuparam o espaço de bocas de fumo em São Sebastião. A avenida que até cinco anos atrás era ponto de encontro de usuários e traficantes de drogas hoje reúne magazines lado a lado. A movimentação no centro comercial mais badalado da cidade agora é à luz do dia, ao longo da semana. O tráfico e a violência não são problemas resolvidos, mas o dinamismo da economia local ajudou os moradores a conquistar a liberdade de sair às ruas e consumir bens e serviços.

São Sebastião nasceu antes mesmo da capital federal. Naquela região, a 26km do centro de Brasília, foram instaladas as olarias que forneciam os tijolos usados para erguer os monumentos de Oscar Niemeyer. A tímida agrovila ganhou a condição de região administrativa em 1993 e, desde então, passou a crescer ainda mais rápido. Novos bairros surgiram e trouxeram asfalto para as ruelas empoeiradas. O governo criou linhas de ônibus e levou água, esgoto e energia elétrica para as áreas desabastecidas. A infraestrutura atraiu mais gente e a população atingiu a marca de 100 mil pessoas.

O adensamento populacional forçou o desenvolvimento do comércio. Hoje são cerca de 1,2 mil empresas espalhadas pela cidade, com destaque para supermercados, madeireiras e lojas de material de construção. O presidente da Associação Comercial e Industrial de São Sebastião, José Carvalho Pereira Júnior, acredita que, apesar do avanço, há muito espaço para investimentos, principalmente nas áreas de lazer e gastronomia. “Não temos churrascaria, por exemplo. Os moradores passam o fim de semana com dinheiro no bolso, mas não têm onde gastar”, comenta.

A expectativa é que, nos próximos anos, a região se consolide como importante centro econômico do Distrito Federal. Com o lançamento da primeira etapa do Setor Habitacional Mangueiral, até 2014 são esperados 20 mil novos habitantes. “Toda essa gente vai consumir em São Sebastião”, prevê Júnior. O sócio-diretor da Valorum Consultoria em Gestão Estratégica, Marcos André Melo, lembra ainda o potencial consumidor de moradores de condomínios de luxo, como o AlphaVille, que está sendo erguido naquela direção. “Isso também vai mexer com a economia da cidade”, aposta.

Reivindicações
O desenvolvimento fez surgir prédios de até quatro andares, o que era improvável na opinião dos mais antigos. Em geral, a população mostra-se satisfeita com as mudanças ocorridas na última década. “Agora a gente pode comprar de tudo aqui. Quando eu era pequena, precisava descer para o Plano (Piloto)”, compara a professora Elizete Rodrigues, 32 anos, filha do fundador da cidade, o conhecido Tião Areia. “Só que a gente sempre quer mais. Faltam bancos e o atendimento no comércio precisa melhorar”, reclama Elizete, nascida e criada em São Sebastião.

Nos supermercados da cidade, os clientes exigem produtos de primeira linha. “Se colocar marcas ‘tipo dois’ nas prateleiras, não vende”, conta Francisco Guilherme dos Santos, 44 anos, dono da rede que mais cria empregos na região administrativa. Somam-se 200 funcionários nas duas lojas. “Quando abri a segunda unidade, em 2007, muita gente me chamou de louco. Resolvi apostar e deu certo”, comenta ele, filho de pioneiro, que chegou ao DF aos 5 anos. “Vendemos uma fazenda para abrir o comércio na cidade”, conta Santos. O faturamento da empresa cresce a cada ano.

Até outubro, a primeira unidade da rede de supermercados, inaugurada em 1990 como açougue e sacolão, será transferida para um espaço duas vezes maior, de 2 mil metros quadrados. O investimento será de R$ 2,5 milhões. “Acredito nisso aqui”, reforça Santos. “Com o Mangueiral pronto, tenho certeza de que o movimento ficará ainda melhor”, completa. Além dos moradores da cidade, o comércio de São Sebastião atende a demanda dos condomínios do Jardim Botânico e mesmo do Lago Sul. A feira permanente é uma das tradições que atrai centenas de pessoas durante a semana.

Novo bairro
Quando for concluído, o Setor Habitacional Mangueiral terá 8 mil casas e apartamentos e abrigará cerca de 30 mil moradores. O novo complexo possui 200 hectares e se estende ao longo da DF-463, em direção a São Sebastião. Os imóveis serão destinados a pessoas que ganham até 12 salários mínimos, preferencialmente inscritas na Companhia de Desenvolvimento Habitacional do DF (Codhab).

Agropecuária é o forte da economia
Rodeada por fazendas e no caminho do município mineiro de Unaí — importante polo agrícola do Centro-Oeste —, São Sebastião tem uma agricultura forte, que movimenta o mercado de produtos agropecuários. Apesar de pertencer oficialmente à região administrativa do Paranoá, a área do Programa de Assentamento Dirigido do DF, conhecida como PAD-DF, também impulsiona o consumo de bens e serviços em São Sebastião, por conta da proximidade com a cidade.

O PAD-DF se destaca pelas plantações de soja (uma das maiores do país), milho, feijão, trigo e sorgo. A área possui cerca de 88 mil hectares e abriga 6 mil pessoas espalhadas pelas agrovilas Capão Seco, Lamarão, Cariru, Riacho Frio, Quebrada dos Neris, Café Sem Troco, Jardim I e II, Sussurana, Buriti Vermelho, São Bernardo e Itapeti. Os produtores respondem por mais de R$ 100 mil em impostos por mês, segundo a Cooperativa Agropecuária da Região do DF (Coopa-DF).

O paraibano Francisco Pereira de Souza, 61 anos, conhecido como Chaguinha, chegou à zona rural de São Sebastião em 1980. Começou como vaqueiro em uma chácara e hoje é dono de uma propriedade de 23 mil metros quadrados onde planta e colhe o sustento da família: são seis filhos e 17 netos. “Mas comigo moram só umas 10 pessoas”, conta. Com financiamento de R$ 18 mil, ele se prepara para, em 2011, deixar prontas cinco estufas. Ali serão produzidos pepino, alface, tomate, pimentão, pimenta-de-cheiro, milho e abóbora.

A colheita continuará sendo vendida nas Centrais de Abastecimento do DF (Ceasa) duas vezes por semana e, aos sábados e aos domingos, na Feira de Planaltina. “Parece que está dando certo, né? Comecei no regador e, com o tempo, a gente foi se ajeitando”, comenta Chaguinha. Ele mal sabe escrever o nome, mas não deixa de fazer planos. “Este ano, ainda vou comprar um caminhão para transportar melhor os produtos. O Opala já ficou velho.”

Agricultura
O Programa de Assentamento Dirigido do Distrito Federal (PAD-DF) começou a ser executado em 1977, com o objetivo de incorporar as terras inexploradas ao processo produtivo. O programa, situado no km 5 da BR-251 — Brasília/Unaí (MG) —, abrange uma área de 61 mil hectares para o plantio de cereais, hortifrutigranjeiros, bovinocultura e avicultura. O local é considerado referência em tecnologia.

Via Correio Braziliense do dia 15/02/2010
Tecnologia do Blogger.