Ainda somos capazes de nos indignar?



Chamo atenção para a leitura do texto abaixo da geógrafa Adriana Bunn, sobre o pensamento das pessoas para com o próximo e sua reflexão nos movimentos de lutas e busca por melhoras para todos.






Se fizermos uma pesquisa com os cidadãos brasileiros sobre qual o maior sentimento que eles tem com relação ao seu país, sou capaz de apostar que um coro unânime gritaria: indignação! Indignação com a saúde, o transporte, a falta de segurança, a corrupção, e nesta semana em Florianópolis, com a greve dos condutores e cobradores de ônibus.

Essa indignação se perpetua por gerações, dando sempre a impressão de que a coisa nunca muda, só piora. Toda indignação tem seu causador, aquele que é apontado como culpado, e percebo que as coisas nunca mudam e só pioram porque durante gerações, vivemos brigando contra os efeitos e nunca contra as causas. Apontando como culpado quem é tão vítima da sociedade quanto nós, e sempre isentando da culpa, aqueles que deviam pagar por ela.

A indignação não anda só. Ela anda acompanhada da tacanhice. Lembro perfeitamente da última greve dos motoristas, quando ouvi uma conversa na rua mais ou menos assim: “Esses vagabundos tem é que tomar uma coça! Onde já se viu um cobrador ganhar mil reais, eu ralo o dia todo e ganho oitocentos”.

Claro, se eu ganho oitocentos, nenhum ser humano sobre a terra pode ganhar mais que eu, coisa mais absurda! Ora, mil reais não sustentam uma família nem aqui nem no Haiti, porque não estamos falando de simplesmente não morrer de fome e sim de poder alimentar, educar, dar condições dignas de vida. Ao invés, porém, de me indignar com meu salário de oitocentos e me juntar ao coro dos cobradores, eu fico mesmo estressado é porque o cobrador está pedindo mil, logo, o inimigo é o cobrador.

Quando a passagem aumenta, os trabalhadores ficam em polvorosa, pois temos uma passagem caríssima, um transporte de péssima qualidade, e que a cada ano fica ainda mais caro. Toda a população se revolta, mas somente os estudantes e poucos populares vão às ruas protestar. O protesto faz com que um sistema já precário funcione de forma ainda pior, aí quando meu transporte ruim e caro não funciona minimamente para me levar para o matadouro diário, elejo os estudantes como fonte da minha indignação.

Quando a luta dos estudantes, que se sujeitam a apanhar da polícia, à prisão, ao mau humor de todos os que são tão explorados quanto eles tem resultado, aí “o prefeito foi gente fina e voltou atrás, baixando o preço das passagens”.

Há alguns anos atrás a população de Florianópolis teve a oportunidade de ir às ruas protestar contra as concessões no transporte público. Mais uma vez o inimigo público não foi a prefeitura que doou terrenos públicos para as empresas privadas explorarem (literalmente) o transporte público, nem os empresários que desavergonhadamente se locupletaram de instituições publicas para obter lucro privado e sim nós, que estávamos ali gritando contra isso.

Todo mundo é a favor do “faça seu protesto, desde que isso não tenha nenhum reflexo na sociedade”. Não ligo se o professor do Estado entrar em greve, se meus filhos estiverem na escola particular, mas caso contrário, as crianças vão ficar incomodando em casa (já ouvi isso sim, sem tirar nem por uma palavra sequer). Não ligo para a greve da saúde se eu tiver um plano privado, mas jamais, ouça JAMAIS os médicos conveniados de meu plano poderão fazer um dia de paralisação. O fato é que a necessidade de um protesto ter reflexo na sociedade é fruto da falta de solidariedade de classe anteriormente citada. Se o professor do estado não tem utilidade para mim, pouco me importa que ele morra de fome, não é problema meu.

Se “o filho dos outros” não tem educação de qualidade (ou até sem qualidade, que seja) não tenho nada com isso. Agora quando o filho dos outros, sem educação, começa a assaltar, roubar e matar, exijo que o Estado o execute, e ele continua não sendo problema meu. E o culpado nunca é o Estado, é o malandro que não estudou.
Fico impressionada como ao mesmo tempo o brasileiro tem fama de preguiçoso, de que “não gosta de trabalhar”, mas contraditoriamente, acha uma vergonha os direitos trabalhistas. Acha que nasceu para viver debaixo do relho, do bico da bota, ganhar pouco e que direito é coisa de vagabundo. Em resumo, se acha explorado, mas acha que tem que ser assim.

Lembro de uma época, também há alguns anos, que houve uma paralisação na CELESC de um dia, amplamente divulgada, com a intenção de dar visibilidade aos desmandos e à corrupção dentro da empresa. Estava no ônibus, e as pessoas do banco da frente quando passaram na frente da empresa disseram: “esse bando de desocupado só quer saber de ganhar dinheiro, já ganharam aumento este ano”. Fui obrigada a intervir e explicar o porquê da paralisação, daí ouvi um “ahhhhh, tá”.
Temos a cultura de descer a lenha, sem nem sequer saber o motivo pelo qual as coisas acontecem, de opinar sobre o que não sabemos, de desenvolver teorias sobre o que não lemos e sobretudo, de ficar indignados se formos contrariados por alguém que estudou sobre o assunto. Aliás, estudar e defender posições neste país virou sinônimo de ser “intelectual radicalóide”. Aqueles que se debruçam e perdem seu precioso tempo lendo, estudando, pensando seu país para tentar dar a ele alguma contribuição são ridicularizados, ao passo que ser um ignorante boquirroto dá status, ainda mais se esse tiver um espaçozinho na mídia. Mais uma vez, a culpa é de quem estuda e tenta abrir os olhos da massa.

Assim, odiando e culpando os estudantes, os motoristas, os professores, todos os que se mobilizam por melhores condições, os trabalhadores rurais que lutam pela reforma agrária (que a população não sabe o que é e confunde com ganhar terra), os frutos do abandono do estado que se tornam promotores da violência, entre tantos outros, e nunca, mas nunca levantando a bunda do sofá, ao mesmo tempo que invejando a Europa “que quando está descontente quebra tudo”, vivemos geração após geração indignados e nunca mudando nada.

Enquanto isso, o Estado e a classe empresarial exploradora (e falo dos grandes e não dos pequenos, que se encontram também no caldeirão dos explorados), gentilmente nos agradecem com um brinde da mais cara bebida, sorvida de bracinhos entrelaçados.

Geógrafa 
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