Aos 60 anos, pedreiro dribla as dificuldades e pedala 24km até uma escola

Edgar Ferreira de Oliveira luta, todos os dias, contra o analfabetismo
O verdadeiro desbravador da escuridão tem 60 anos e pedala uma bicicleta. Edgar Ferreira de Oliveira luta, todos os dias, contra o analfabetismo e o cansaço. Ele percorre, à noite, 24km, sendo 20km em estrada de chão. O percurso separa a moradia dele, em um assentamento rural, da Casa de Paulo Freire, em São Sebastião, onde ele começa a desvendar as letras. O horário da aula, das 19h às 21h, não é empecilho para o estudante dedicado. Segundo o professor e fundador da instituição voltada à alfabetização de jovens e adultos, Elias Silva, a assiduidade de Edgar o impressiona. Ele o acompanha há um ano e meio. Durante o dia, as mãos calejadas trabalham a massa usada na edificação de casas, mas, ao cair do sol, elas repousam sobre o lápis e desenham as primeiras palavras, universo antes desconhecido para o pedreiro.

Desde 1973, Edgar abraçou Brasília como lar. Natural da Bahia, ele deixou o estado de origem em busca de trabalho, assim como milhares de pessoas que migraram para a capital federal. Lá, ficaram lembranças e uma família. Pai de quatro filhos, confessa ter perdido notícias de alguns, pessoas que não encontra há mais de duas décadas. “O mais velho, que hoje mora em São Paulo, já veio me visitar. Aí eu disse: ‘Quem gosta vem, os que não gostam ficam por lá’.” O pedreiro casou-se na cidade baiana de Campo Alegre, mas as idas e vindas ao Distrito Federal culminaram na separação do casal. “Um dia, eu cheguei em casa e a mulher tinha feito a minha mala. Tentei morar com o meu pai, mas não deu certo. Acabei vindo para cá, cidade que corre vento. O lugar é bom demais”, disse.

Edgar não tem a Carteira de Trabalho assinada nem emprego fixo, por isso, a quantia que recebe varia a cada mês, depende da função desempenhada na obra da vez. Mas, normalmente, o valor não passa de um salário mínimo. Dinheiro que, segundo ele, supre apenas o básico. “É difícil sobrar para comprar um sapato. Mas agora é mais fácil porque não tenho que pagar aluguel”, explica. Atualmente, o homem que levanta paredes vive sozinho em um barraco improvisado feito com tábuas no Núcleo Rural Capão Comprido. Na moradia, há apenas um quarto sem divisórias. “O nosso banheiro é o cerrado e, para tomar banho, a gente se vira, arruma uma lata. Se eu ganhar terra, quero fazer uma casa com três cômodos”, revelou.

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