O assassinato da velha Gameleira


Por ter "sofrido" um processo meio que relâmpago de transformação, saindo do aspecto rural, para o urbano da noite pro dia, São Sebastião atropelou e matou alguns dos seus ícones e pontos de referencia. Alguns caíram no esquecimento, outros simplesmente desapareceram, exemplos: o bar do Ciro no antigo morro (hoje morro azul), que era um dos nossos principais pontos de encontro além de ser o primeiro comércio na entrada da cidade, o bar da Dona Maura, que fazia confluência com a rua de acesso da escola da bênção, o Manezinho do Américo, o bar do Joãozão, a fazenda-odontologica-protética-e-olaria do Brair Moreira (vulgo Brair rico, para não confundir com xará menos afortunado, que era chamado a boca pequena de brair pobre), o armazém do seu João Paulo, a cerâmica da arte, a Sthill, a BKT, São Judas, Bênção e Falú.

Existia ainda uma infinidade de Olarias de tijolo maciço manual, mas dessas eu falarei numa outra oportunidade. Num passado próximo (há trinta anos), essa região era formada por um espesso cerrado, que no ano de 1979, sucumbiu sob a força das correntes dos tratores massey Ferguson e dos D-8, para dar lugar às mudas de eucalipto, desse cerrado sobrou poucas espécies, entre elas, um frondoso pé de copaíba (pau d´olio) que ficava a beira da metade do caminho, que ligava o morro azul a escola São paulo e resistiu bravamente até os meados dos anos 90 para morrer, vitima do ressecamento, provocado pela sede dos eucaliptos (conjecturas). Mas para mim, o grande absurdo, um infame e covarde assassinato se deu contra a “pessoa” da velha gameleira. Eu sei, eu sei, pode parecer loucura tratar uma arvore como pessoa, mas eu penso que era assim que ela se sentia e sentiu, porque ao longo de sua historia ela foi testemunha de vários fatos importantes, desde os tempos que aqui era um lugarejo ate o dia de sua morte.

Ela se localizava a poucos metros, da curva de acesso a rua ponte, durante sua vida, foi cúmplice de beijos, abraços, acertos de encontros furtivos, serviu de esconderijo e de apoio para as costas de amantes e namorados nas praticas dos "inocentes" amassos, proporcionou sombra refrescante, para proteger os passantes descansantes contra o inclemente sol, deu origem a nome da rua, e no dia 21 de setembro de 1995 chegou a ser homenageada. Essa gameleira não dava prejuízo a ninguém, exceto uma única vez, quando um falecido tio meu, por nome Pedro (que Deus o tenha), perdeu o controle do seu fusca ano 84, no ano de 1985, dando com ele no seu fornido tronco, mas a culpa não foi da gameleira, afinal ela estava quieta no seu canteiro e o meu tio barbeiro foi quem avançou contra ela.

A velha gameleira teve dois momentos gloriosos, o primeiro já foi citado, quando ela no dia da arvore foi homenageada pelos alunos da escola da bênção, nesse dia ela pode reconhecer umas duas ou três crianças, que podem ter sido geradas com sua muda aquiescência debaixo de sua frondosa sombra, e o segundo foi em meados de 1997, quando ela foi “tombada” como patrimônio da cidade. Foi uma coisa linda de se ver, crianças, adultos, cães, gatos, os urbanizados pardais, uns tico-ticos e outros pássaros, uns pseudo lideres comunitários, alguns discursos e uma placa para marcar a grande data.

Alguém metido a entendido de botânica disse: “nesta data solene do dia da arvore, estamos aqui reunidos em nome da conscientização, para a importância da defesa do meio ambiente, para incutir nas crianças, o amor pela fauna e pela flora, por isso declaramos essa arvore a Fícus doliaria -(nesse ponto, quase totalidade dos presentes se entreolharam de olhos arregalados, mas ninguém pediu maiores esclarecimentos, por isso, até hoje, muitos daquele grupo não sabem que esse é o nome cientifico da gameleira)- como patrimônio de São Sebastião”.

Pronto, estava imortalizada a velha gameleira. Uns dias depois, eu fotografei minha filha caçula e o meu segundo filho, que na época tinham três e cinco anos de idade na ordem citada, sentados debaixo do pé da gameleira. E pode-se notar na foto acima, a base da placa do “tombamento”. Para minha surpresa, depois de pouco mais de um mês a velha gameleira foi literalmente tombada, cortada, ceifada, erradicada. O argumento para tal atitude foi de que ela estava ocada, com uma grave doença no seu cerne, mas na minha conceituada opinião de leigo conspirador, ela foi eliminada, assassinada para dar lugar ao prédio que foi construído imediatamente, após o seu "definitivo tombamento".

Acabou-se a sombra, a pausa pro descanso seguido de prosa, acabou-se os encontros, os acertos, os acoitos, destruiu-se placa de tombamento. A mim, restou às lembranças, de tempos e cenas bucólicas como o destaque de sua sombra, na claridade prateada das noites de lua cheia e uma foto, de um momento especial, da infância dos meus filhos, sob a sombra diurna, da velha gameleira.

Texto e fonte: Edvair Ribeiro
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