Às margens da BR-251, aeroporto privado do DF movimenta 400 voos

No meio do verde, aparecem a pista de 1.750m e os hangares: a área existe há cerca de dois anos, mas o crescimento veio nos últimos meses
Às margens da BR-251, próximo a São Sebastião, uma discreta estrada de terra corta o cerrado sem chamar a atenção de quem passa pela rodovia. Mas ao atravessar a porteira rústica de arame, o visitante tem uma grande surpresa. Por trás dos arbustos, há 65 modernos hangares à beira de uma grande área para pousos e decolagens. Neles, ficam guardados 105 aviões. Apenas uma simplória placa na entrada da propriedade dá dica sobre o que está escondido no local: Aeródromo Botelho. O terminal — o segundo maior do Distrito Federal — cresce a um ritmo acelerado, com a construção de dezenas de novos hangares, motivada por uma enorme demanda reprimida. Os proprietários do espaço, que recebe até mesmo aviões de órgãos públicos, já planejam melhorias, como a iluminação para operações noturnas ou adaptações para o pouso de aeronaves maiores.

A pista do aeroporto privado tem 1.750 metros, quase o equivalente ao espaço para pousos e decolagens de Congonhas, em São Paulo. Empresários, políticos e fãs de aviação dividem o espaço, que tem 1 mil hectares. Além de economia de custos, os donos de hangares no Aeródromo Botelho dizem que o uso da área propicia ganho de tempo com relação à utilização das pistas do Aeroporto Internacional de Brasília Juscelino Kubitschek.

Como todas as terras rurais do DF, a fazenda que deu origem ao aeródromo está em terra pública — os ocupantes possuem apenas o direito real de uso. A reportagem procurou ontem a Terracap para ter informações sobre o processo de regularização da área e sobre a legalidade da venda de frações do terreno para terceiros. Mas a empresa não retornou as ligações até o fechamento desta edição.

O aeroporto de São Sebastião está aberto há dois anos. Pioneiro em Brasília, José Ramos Botelho, 84 anos, mantinha uma fazenda de gado no local desde os anos 1970. Em 2003, a família registrou a pista para uso próprio. Em 2011, pressionada por amigos e conhecidos interessados em usar o espaço, a família ampliou a estrutura e o uso do aeroporto.

O crescimento do segundo maior terminal de pousos e decolagens é sinal também da pujança econômica de Brasília. Seja por lazer, seja por necessidade de deslocamentos rápidos, moradores da cidade recorrem a aviões pequenos e médios. Um modelo de quatro lugares custa cerca de US$ 640 mil. A implantação do Aeródromo Botelho também foi impulsionada pela concessão do Aeroporto Internacional à iniciativa privada. “Com a privatização, as tarifas foram reajustadas. Além disso, a prioridade é sempre dos aviões comerciais. Às vezes, o piloto tem que ficar sobrevoando a cidade por até meia hora para conseguir autorização para pousar (no JK)”, explica Trajano Botelho, 24 anos, filho de José Ramos e um dos administradores do terminal.

Taxas
Os donos de aviões pequenos têm que pagar R$ 250 por operação realizada no Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek, além de R$ 4 mil mensais para guardar o equipamento. No aeródromo de São Sebastião, os usuários pagam uma taxa de R$ 215, dinheiro que é destinado à manutenção do local. Os interessados podem arrendar terrenos para construir os hangares. Cada lote pode sair por até R$ 100 mil. Dentro da área do Aeródromo Botelho, há dezenas de novos hangares em construção. Cada um pode abrigar até três aviões de pequeno porte. 

Trajano Botelho explica que o foco da família não é a exploração comercial — o que é vedado pela legislação (veja O que diz a lei, na página 20). “Queremos montar uma oficina de manutenção e ganhar com a oferta de serviços.  Também temos a ideia de criar uma área de turismo rural na propriedade, com a construção de estruturas como pesque-pague”, explica. O aeródromo tem 65 hangares, mas o projeto prevê a construção de até 226 — 201 para aviões de até seis lugares e 25 hangares para aeronaves maiores, como jatos. Até mesmo aviões de órgãos públicos usam o espaço, segundo Trajano. 

“Aviões do Ministério da Saúde transportando índios para tratamento, por exemplo, costumam pousar aqui. Quando houve um grande incêndio no Jardim Botânico, as aeronaves de apoio dos bombeiros também usaram nossa pista”, conta o administrador do aeródromo.


Proprietários precisam pagar uma taxa de R$ 215 para manutenção


Botelho e o filho: privatização do JK impulsionou implementação

Burocracia
O empresário Cairo Sarkis Simão, 52 anos, voava de ultraleve e sonhava em ter um avião maior. Mas nunca comprou uma aeronave por causa dos altos custos do Aeroporto JK. “Eu queria há tempos passar para a aviação maior, mas isso era quase inviável pelo custo e pela burocracia de usar o aeroporto internacional. Quando Aeródromo Botelho abriu, eu rapidamente comprei uma aeronave”, conta o empresário, dono de um modelo com quatro lugares. “O aluguel de um espaço em hangar custava mais de R$ 4 mil, fora as taxas da Infraero. E o pior era esperar até uma hora e meia para decolar. O tráfego aéreo está lotado: no aeroporto falta espaço até para os aviões grandes comerciais, imagina para os pequenos”, acrescenta Sarkis. 

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) informou que o aeródromo de São Sebastião está devidamente registrado e homologado. “Aberto ao tráfego aéreo, o local pode receber aeronaves de pequeno porte e particulares. Por ser um aeródromo privado, não pode haver operações comerciais, apenas operações privadas e autorizadas pelo operador, que é o responsável pela administração do local”, diz um trecho da nota oficial enviada pela Anac. 

Personagem da notícia
Apaixonado por aviação
Aos 84 anos, José Ramos Botelho é um homem de fala mansa e jeito simples. Como todo mineiro, gosta de prosear e contar causos, especialmente sobre os primeiros anos de Brasília. Ele chegou à capital federal em 1964, quatro anos após a inauguração. Saiu do Triângulo Mineiro para abrir uma loja de automóveis no Setor Comercial Sul e aproveitou as oportunidades de uma terra ainda em construção. Em 1970, comprou a fazenda na área onde hoje está o aeródromo. Botelho sempre foi apaixonado por aviação e começou a pilotar com um modelo monomotor conhecido como Paulistinha. Ensinou o hobby aos herdeiros, que hoje tocam o novo empreendimento. Dono de uma fazenda em Alvorada (GO), na divisa com a Bahia, ele usava o avião para circular entre as duas propriedades. Hoje, fica mais em Brasília, onde gosta de tomar café e apreciar o horizonte com o vaivém dos aviões.
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