Oligopólio domina Entorno

Ônibus da Viação Anapolina (Vian) rodou sozinho na pista do SIG, em Brasília: frota tem média de 12 anos

Frota antiga, tarifas exorbitantes e problemas trabalhistas são como fogo para rastilho de pólvora que se desenha no trajeto entre as cidades do Entorno e o Distrito Federal. Cenas como as de segunda-feira, quando os dois sentidos da BR-040 foram fechados e a população entrou em conflito com as tropas de choque, expõem os desmandos dos três grupos econômicos que dominam o serviço na região sem nunca ter enfrentado uma concorrência pública. Pelos municípios goianos vizinhos de Brasília circulam ônibus com uma média de 12 anos, muitos retirados do sistema da capital da República após a licitação de 2013. Os funcionários das empresas são submetidos a constantes atrasos salariais e dos benefícios. 

Os sistemas de transporte público do DF e das cidades do Entorno têm diferenças relevantes. Além de Brasília contar com uma frota renovada quase que completamente, no Entorno, o salário-base de um motorista é de R$ 1,4 mil e o tíquete-alimentação de R$ 300. O valor não é tão abaixo dos R$ 1,8 mil pago aos condutores que rodam por aqui, mas os constantes atrasos no pagamento dos vencimentos e dos benefícios dos funcionários goianos os colocam em uma situação de insegurança absoluta. 

Trabalhadores da Viação Anapolina (Vian), por exemplo, cruzam os braços diariamente, desde o fim de semana, para reivindicar os ordenados de janeiro e fevereiro. A promessa da direção da companhia é de que, hoje, o dinheiro cairá na conta dos grevistas. Já o vale-alimentação deve ser repassado até sexta-feira. O serviço foi parcialmente restabelecido, ontem, em Valparaíso, em Luziânia e no Novo Gama. Na Cidade Ocidental, porém, os rodoviários optaram por manter a paralisação até serem recebidos pelos patrões. 

O problema da Vian se estende às 13 empresas que atuam na região, de acordo com o presidente do Sindicato dos Rodoviários do Entorno, Reinan Rocha. “Todas as empresas do Entorno estão com problemas financeiros com os funcionários, seja pelo salário, seja pelos demais benefícios, como o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), auxílios e multas trabalhistas”, afirma. Isso significa um universo de 5 mil motoristas e cobradores nessa situação. Os ônibus em que trabalham têm idade-média de circulação de 12 anos, 7 anos a mais do que o recomendado pela Agência Nacional de Transportes Terrrestres (ANTT). Mas há coletivos com 20 anos de uso. 

Muitos desses veículos foram adquiridos pelas empresas após a renovação da frota do DF, conforme revelou o Correio, em janeiro. Fabricados entre 1996 e 2009, os ônibus foram colocados à venda pelos grupos econômicos que não permaneceriam no sistema. Os preços cobrados eram de R$ 28 mil. Os anúncios eram divulgados em portais especializados em transportes e vendas de produtos diversos e em outdoors. A questão também atinge a tentativa de manutenção da influência dos tradicionais barões do transporte. Expulsos da operação no DF, eles continuam a comandar a circulação dos 1,1 mil coletivos que ligam Goiás ao centro de Brasília. 
Grupo Amaral

O Grupo Amaral é um dos que mantém as atividades na área. Há mais de um ano, o Governo do Distrito Federal fez uma intervenção no grupo, por causa de atrasos e desvios de itinerários. Propriedade do ex-senador Valmir Amaral, o conglomerado acabou limado do sistema candango. Hoje, duas empresas dele, a ESA e a Rápido Planaltina, atendem às linhas de Águas Lindas, Santo Antônio do Descoberto e Planaltina de Goiás. Em Luziânia e no Novo Gama, quem manda é a Vian e a Vialuz, do grupo Odilon Santos — que abarca 10 empresas do ramo no Centro-Oeste. Santos também é dono da Viação Araguarina e Goiânia, que mantém o monopólio do transporte na BR-060, entre Goiânia e Brasília. A terceira grande empresa do Entorno é a Taguatur, do maranhense José Medeiros.

Mesmo com a péssima qualidade, o serviço custa caro aos usuários. As tarifas para cruzar a divisa Goiás-Brasília oscilam entre R$ 1,15, no trajeto Novo Gama-Gama, e R$ 4,95, de Luziânia a Taguatinga, enquanto as passagens no DF não passam de R$ 3. Porém, na maioria dos casos, os moradores de Valparaíso vão até Santa Maria (DF) de carona ou ônibus, e, de lá, pegam um ônibus até à Rodoviária do Plano Piloto. Do principal terminal de Brasília, eles ainda precisam pegar mais um ônibus até as Asas Norte e Sul ou demais regiões administrativas do DF. Em um dia, vão-se seis passagens e aproximadamente R$ 15. Ao fim de um mês, são mais de R$ 300 somente para custear a ida ao trabalho e avolta dele.

Sem aumento

De acordo com o assessor jurídico da Viação Anapolina, Antenor Brito, o atraso nos pagamentos se deve ao fato de há dois anos a empresa não fazer reajustes de suas tarifas. “Nesse meio tempo, tivemos um aumento de 24,73% com pessoal, gasto que representa 43% do custo da tarifa”, disse ele, que também citou o aumento do diesel.

As operadoras

» Grande Brasília
» Monte Alto
» Rota do Sol
» Sagres
» Santo Antônio
» Vaztur
» Viação Águas Lindas
» Viação Anapolnia
» Viação Luziânia 
» Viação Nova
» Taguatur
» Rápido Planaltina

Fonte: Correio Braziliense
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