Na onda do Natal do Vila do Boa

 
Olhos vidrados no portão verde. Por alguns segundos, houve silêncio. Quando a primeira fresta da porta se abriu, as crianças prenderam a respiração e no momento que o tão esperado visitante chegou não faltou comemoração. Era o Papai Noel. Meninos e meninas da comunidade Vila do Boa, em São Sebastião, estavam reunidos na Escola Classe aguardando ansiosamente a promessa de uma visita especial. Minutos antes, os mais velhos disseram ser o Bom Velhinho uma lenda. Mas, no momento da emoção, todos se juntaram ao redor do barbudo para tirar uma foto, dar um abraço e dizer que “sim, fui um bom menino e um bom aluno”.

Ele foi ovacionado e praticamente carregado no colo pela criançada. Apesar da timidez, André Luis de Sousa Alencar, 6 anos, não conseguiu esconder a alegria ao receber das mãos do Papai Noel o presente de Natal. “Esperei o dia todo por ele”, conta o menino. Em um embrulho vermelho, estavam dois caminhões que logo foram inaugurados na brincadeira com os amigos. A fila para se sentar no colo do bom velhinho era enorme. Crianças de todas as idades queriam desfrutar do momento. Até os pais que acompanhavam os filhos menores não perderam a chance e mostraram que Natal não tem idade. A essência da data vai além do imaginário infantil.
 
 
A visita do Papai Noel finalizou o Natal da Vila do Boa, promovido no último domingo pela ONG Onda do Bem. Durante um dia inteiro, cerca de 700 crianças e 300 adultos participaram de diferentes atividades desde educativas, como higienização bucal, até recreativas, com direito à cama elástica, pintura de rosto e show com músicos da cidade. Também tiveram atendimento psicológico, corte de cabelo e maquiagem. “Tudo começou com um grupo de amigos que fazia pequenas ações sociais. A onda foi aumentando e cativando mais gente. Ano passado, fizemos a festa do Dia das Crianças na creche e agora resolvemos fazer a festa de Natal”, explica uma das organizadoras Ana Luíza Gomes, 29 anos.

A Vila do Boa é uma invasão que fica próximo aSão Sebastião. A comunidade foi escolhida por este grupo de surfistas do bem que quer fazer a diferença e, mais do que isso, encontrar pequenos futuros atletas. “A população aqui é muito esquecida. Temos problemas de saúde e de lazer, por exemplo. Atividades assim são muito importantes. As crianças não têm isso em casa”, comenta Alessandra de Oliveira Alves, 26 anos, coordenadora de Relações Públicas da Creche Santa Rita. A instituição atende 40 crianças em período integral e, além da ajuda de voluntários, conta com o apoio dos vicentinos.
 
 
Sonhos
Correndo de um lado para o outro, um grupo de amigas aproveita o dia pensado especialmente para a criançada. Quem liga se a calça está suja de SE sentar no chão? Na hora da foto, a pose é de modelo profissional. “É bem assim que faz, olha tia”, mostra Bruna Almeida da Silva, 10 anos. Pouco depois de terem chegado ao evento, as meninas haviam brincado no pula-pula, pintado o rosto, comido cachorro-quente e queriam mais. Papai Noel era o nome mais comentado. “Quero um tablet para tirar uma selfie e postar no meu Facebook”, dizia Aysha Silva Lima, 10 anos.

Entre um gole e outro de refrigerante no bico da garrafa, vale sonhar, e a comunidade da Vila do Boa é cheia de anseios. Bruna e a amiga Samara Maria da Costa Oliveira, 7 anos, querem ser professoras. “Para brigar com os meninos bagunceiros”, justificam. A mais nova, Ana Cecília Rodrigues da Silva, 5, prefere a profissão de aluna e Aysha planeja ser médica. Do outro lado da escola, Mateus da Silva, 8, e Ricardo Lopes da Silva, 8, se inspiram nos ídolos Messi e Neymar, respectivamente, para permanecer invictos na mesa de totó.
 
 
O encanto do Natal também tirou de casa Deusdália Andrade, 64 anos. A dona de casa mora na comunidade desde 1994. “Quando cheguei aqui não tinha energia, asfalto, não tinha quase nada”, relembra. Ela veio para Brasília com os filhos buscar uma nova vida, porque a família não aceitava o fato de ser mãe solteira. Há sete anos, ao fazer um procedimento no hospital, pegou uma bactéria e teve que amputar uma das pernas. Desde então, sair de casa é um desafio e a situação piorou em novembro, quando caiu da cadeira já desgastada.
 
 
A OnG Onda do Bem comprou uma nova cadeira de rodas para Deusdália e ainda uma especial para o banho. Ao receber o presente, a dona de casa não conteve o choro. “Nunca saio de casa. Agora é lutar para vencer”, define. Além dela, cinco pessoas receberam um equipamento novo. Os presentes nem o dia de brincadeira no pula-pula vão transformar a realidade ou resolver os problemas da Vila do Boa. No entanto, o que depender da ação dos surfistas desta onda brasiliense, a visita do Papai Noel foi apenas o primeiro passo de uma nova história de solidariedade e carinho.
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