Como um galpão abandonado mudou a vida de centenas de jovens em São Sebastião



Usar o esporte como instrumento de transformação é o principal objetivo do projeto de lutas Social Campeão. Um galpão em São Sebastião, que antes servia para guardar entulhos e estava abandonado, hoje recebe cerca de 150 pessoas por dia, entre crianças e adultos, para treinos de jiu-jítsu, judô e muay thai. Localizado no bairro Bonsucesso, o projeto, além de mudar a vida de moradores, forma atletas.


Com o fim de outro programa social de lutas que funcionava na região, crianças e jovens deixaram de ser atendidas, e a necessidade surgiu. Assim, Pedro Moura, 26 anos, se uniu a Adalberto Ventura, 46, para criar o Social Campeão. Ambos apaixonados pelas artes marciais, eles se envolveram com a modalidade bem cedo. Pedro dava aula de judô desde os 16 anos no programa que encerrou as atividades. Já Adalberto, mais conhecido como professor Betinho, trabalhava em academia particulares.



Os dois, além de fundadores, dão aulas diariamente ao lado de mais três professores. De segunda a segunda, das 6h às 22h, os treinos movimentam o local, cedido pela administração da cidade. Para Pedro, o trabalho voluntário é uma forma de retribuir a oportunidade que teve quando era jovem. “Eu recebi essa mesma chance e ela me deu uma profissão e a possibilidade de conhecer outros países”, ressalta. O atleta foi campeão mundial de jiu-jítsu em 2014 e bicampeão europeu em 2015 e 2016.


Na opinião do professor Betinho, as histórias de superação dos alunos do projeto são a melhor parte. “Para mim, o mais importante é a transformação de vida desses jovens como cidadãos. Antes, muitos não tinham nem oportunidade de sair daqui, mas, por meio do esporte, estão conseguindo”, afirma. Pedro acredita que a responsabilidade de lidar com a expectativa e os sonhos de jovens é grande, porém garante colher bons resultados com isso.


Exemplo disso é o jovem Washington Barbosa, 23 anos, que luta jiu-jítsu há seis. São muitas as conquistas dele por conta do esporte. Viagens para competições nos Estados Unidos e em Portugal e a oportunidade de estudo são algumas delas. “Por meio do jiu-jítsu, passei a fazer faculdade de educação física”, diz.



Além de aluno, Washington se tornou professor do Social Campeão. O atleta conquistou títulos no Campeonato Brasiliense e viaja ao lado da namorada, Sarah Costa, 19 anos — que conheceu no projeto —, para competir pelo Brasil. A jovem nunca pensou que disputaria a modalidades e é um dos destaques do programa. “A princípio, foi como hobby, e agora comecei a competir em Brasília e nos estados”, afirma.

Recuperado
Já as vitórias do pequeno Antônio* (nome fictício), 7 anos, têm significado grande para a família. Felipe sofreu abuso sexual com 5. Desde então, o comportamento sofreu mudanças e afetou os parentes. Ele desenvolveu comportamento agressivo e precisou de acompanhamento psicológico. Benedita (nome fictício), 42 anos, conta que o filho chegou a ter de tomar remédio para dormir.

O incentivo ao esporte veio por sugestão da assistente social. Ao chegar ao local do projeto, ela admite que teve certo preconceito com a modalidade por se tratar de uma luta. A mãe acreditou que, por conta disso, a agressividade ia piorar. “No outro dia, ele me perguntou se não voltaríamos, porque havia gostado e queria fazer aula”, explica.
Segundo ela, após a primeira semana, o menino já demonstrava evolução. “A agressividade melhorou, ele participou de competições e até medalhas ganhou”, frisa, orgulhosa. A conquista mais importante foi a alta do psicólogo, em dezembro de 2016. “Espero que isso sirva de exemplo e as pessoas entendam que o esporte pode mudar a vida de muitas crianças”, afirma.

Tecnologia do Blogger.