VÍDEO: Polícia desarticula esquema de grilagem no Jardim Botânico


O local fica em área nobre, atrás do Lago Sul, próxima à Ponte JK. O cartaz, na estrada ao lado do cerrado que separa os condomínios Ville de Montaigne e o conjunto formado por Quintas da Alvorada e Mansões Itaipu  alerta: a região é um “sítio arqueológico”, patrimônio da União, sob administração do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan, vinculado ao ministério da Cultura. E avisa: qualquer dano à natureza lá pode ser punido com multa e detenção.

Há ao menos sete anos, uma quadrilha praticava o crime de grilagem de terras no Lago Sul, área mais nobre do Distrito Federal. Com lucro médio de R$ 520 mil mensais, o bando vendia lotes em um condomínio inexistente, chamado Ville de Montagne II. A área pertence à Agência de Desenvolvimento do Distrito Federal (Terracap), conta com um sítio arqueológico, protegido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e está na Área de Proteção Ambiental da Bacia do Rio São Bartolomeu.

Os terrenos são anunciados na internet entre R$ 30 mil e R$ 90 mil. Após a compra, a pessoa se torna integrante da associação de condôminos e tem que pagar R$ 340 por mês. Ao menos 700 lotes foram vendidos, segundo a Delegacia Especial de Proteção ao Meio Ambiente e à Ordem Urbanística (Dema), que deflagrou, ontem, a Operação Dinossauro. O nome da operação deve-se à tentativa dos grileiros de burlar o licenciamento para uso das terras junto ao Iphan. Segundo as investigações, eles apresentaram um relatório ao instituto propondo a preservação do sítio arqueológico dentro do terreno para conseguir autorização de exploração.


Agentes foram às ruas ontem de manhã para cumprir 14 mandados de prisão temporária, 10 mandados de condução coercitiva e 27 mandados de busca e apreensão, no Distrito Federal e em Unaí (MG). Eles prenderam cinco pessoas, sendo um ex-corretor de imóveis e o ex-advogado da Terracap Antônio Corradi. Os acusados vão responder por grilagem de terras, lavagem de dinheiro, associação criminosa, falsidade ideológica, tráfico de influência, advocacia administrativa e corrupção ativa.

Afirmando ser arqueólogo, um dos integrantes da organização encaminhou ao Iphan um relatório que prometia proteger a área pública. Após o recebimento de denúncias, o instituto enviou um ofício para a Polícia Civil. De acordo com a delegada Marilisa Gomes, chefe da Dema, o grupo é o mesmo envolvido nas operações Terra Fria e Sacerdote. “Obtivemos muitas provas, antes de deflagrarmos a operação. O Iphan também foi vítima do esquema. É a primeira vez que acontece um caso assim”, comentou a delegada.

Na região indicada do suposto condomínio, há uma área sem construções e cercada por arames farpados da Terracap. Próximo a pista, havia uma placa que indicava ser um local protegido pelo Iphan. Funcionários do Ville de Montagne, condomínio antigo e prestes a ser regularizado, onde o preço médio do lote é R$ 200 mil, informaram que pessoas procuram, diariamente, saber mais sobre os lotes baratos do Ville de Montagne II. “Hoje (ontem), uma senhora ligou perguntando sobre esse condomínio. Há morador aqui que pergunta também, pois os preços baixos atraem. Tem gente que confunde”, contou Camila Martins, secretária do Ville de Montagne.

Legalização

Mesmo após a operação deflagrada, era possível encontrar anúncios de lotes à venda no Ville de Montagne II. O Correio entrou em contato com um corretor e ele disse haver cinco lotes disponíveis. Num anúncio pela internet, disponível desde agosto, um lote sai por R$ 35 mil. “Isso por conta de ser o valor do lote, apenas. Com a Terracap regularizando outros condomínios, orientamos os compradores a não começarem a construir nada. Em seis meses tudo, será legalizado”, explica o corretor.

A venda é garantida por meio de um documento de posse. Todo o procedimento para legalização da compra, incluindo o registro em cartório, deve ser feito por quem adquire o lote. “Podemos, inclusive, marcar uma visita pessoalmente no local. É mais seguro e o síndico vai estar lá para explicar melhor”, orientou o corretor.

O síndico em questão é Randel Machado de Faria, um dos acusados preso pela Operação Dinossauro. De acordo com Marilisa Gomes, tanto Randel quanto Felipe Alexandre Neto, subsíndico do Ville de Montagne II e que também está detido, são experientes em grilagem de terras. “Posso dizer que essa é a profissão deles. Eles até se revezavam nas posições para não deixar suspeitas”, afirmou a delegada.

A Terracap garante que a “visita” não pode ser feita. Por meio de nota, informou que, na área, serão instalados equipamentos públicos, como delegacia de polícia, escolas e postos de saúde. Além disso, disse que diversas tentativas de invadir a região foram feitas para a construção de casas irregulares. Porém, sem sucesso. E mantém um posto de vigilância no local para coibir invasões e preservar o patrimônio público. O Iphan, também por meio de nota, disse que só é possível pesquisar na área se a Terracap autorizar e que isso faz parte de uma etapa do processo de licenciamento ambiental.
Park Way
Deflagrada em 15 de setembro, prendeu acusados de se associarem para ter posse ilegal de terrenos públicos valiosos, localizados em área do Setor de Mansões Park Way.
Dom Bosco
Deflagrada em 22 de setembro, apontam suspeitos de grilagem de terras públicas no Setor de Mansões Urbanas Dom Bosco, no Lago Sul.

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